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Crônica desde o Donbass: Adesão à Rússia abre portas a uma nova fase da guerra

Parte da comunidade internacional diz que os referendos são ilegais. O facto é que a consulta aconteceu e a anexação dos quatro territórios vai ser formalizada pela Federação Russa já nos próximos dias.
No meio, Natalia Fakirova acha que a vida vai mudar quando as repúblicas fizerem parte de Rússia. (Foto: Bruno Carvalho)
photo_camera No meio, Natalia Fakirova acha que a vida vai mudar quando as repúblicas fizerem parte de Rússia. (Foto: Bruno Carvalho)

No mesmo lugar onde há uma semana e meia um massacre vitimou 13 civis em Donetsk, centenas de ramos de flores e alguns peluches simbolizam a homenagem da população aos seus mártires, entre os quais havia duas crianças. São tantos anos de bombardeamentos, agravados desde Fevereiro, que as autoridades pró-russas não precisaram de fazer campanha para o referendo. Da mesma forma que no ocidente da Ucrânia o ódio encontra na intervenção russa o seu oxigénio, os ataques das forças ucranianas parecem ser, em Donetsk, um viveiro de separatistas.

Segundo os números do referendo das autoridades pró-russas, teriam votado na República Popular de Donetsk 2.133.326 eleitores de um total de 2.187.691. Destes, 449.572, entre emigrantes e refugiados, terão votado em pontos de votação na Rússia, e 1.738.119 no território de Donetsk. O resultado apresentado pela comissão eleitoral é avassalador: 99,23% teriam apostado no sim e 0,62% no não.

A legalidade do referendo, como costuma acontecer com quase todos os referendos deste género, foi posta em causa por instituições internacionais e pelas principais potências. Mas ninguém se parece preocupar demasiado com isso em Donetsk ou em Moscovo. É o caso de Natalia Fakirova. No primeiro dia do referendo, encontrei-a num prédio num bairro de Kievsky. Com outras duas mulheres, porque a maioria dos homens está na linha da frente, fazia parte da comissão eleitoral que ia de apartamento em apartamento perguntando aos moradores se queriam votar. Sem qualquer pudor, explica que não quer saber da comunidade internacional porque a comunidade internacional nunca quis saber da população que vive no Donbass. Acha que a vida vai mudar quando estas repúblicas fizerem parte da Federação Russa. "Estaremos protegidos", diz. "Em segundo lugar, é importante para nós. Porque é isso que queremos e queremos que respeitem a nossa vontade. O mais importante é a paz".

Esta é a palavra que todos os eleitores levam na boca quando se lhes pergunta sobre o referendo. No último andar deste prédio, Valentina Bondareva não é excepção. Aparece à porta de robe e aceita falar com os jornalistas depois de votar "sim". "São tantas as emoções. Hoje, votei com prazer pelo regresso à minha pátria", diz. "Tenho muitos anos de idade mas quero que os meus filhos e netos, porque sob o regime ucraniano…".

Valentina Bondareva diz que votou "com prazer pelo regresso à minha pátria". (Foto: Bruno Carvalho)
Valentina Bondareva diz que votou "com prazer pelo regresso à minha pátria". (Foto: Bruno Carvalho)

Com os olhos humedecidos, explica que é "terrível" quando há quem bombardeie "o seu próprio povo". Afirma ser testemunha de vários ataques contra este bairro e critica quem acha que são os russos a bombardear esta cidade pró-russa. "Isso é completamente absurdo, completamente absurdo. Vemos tudo com os nossos próprios olhos. Desde 2014 que nos bombardeiam", garante. "Eles não querem. Não concordam com a nossa vontade".

É, aliás, esta a justificação para os primeiros quatro dias de referendo serem de porta a porta. Para evitar a aglomeração de eleitores e possíveis ataques. Questionada sobre o Ocidente dizer que estes referendos são falsos, Natalia Fakirova explica que não têm nada a provar aos outros países. "Vejam, somos reais, de carne e osso. Vamos aos apartamentos e damos às pessoas a oportunidade de votar. Não votamos por elas. Estamos a usar as nossas últimas forças, as que ainda nos restam, para expressar a nossa vontade. Já tomámos uma decisão há oito anos e ninguém a respeitou".

Outra eleitora, também idosa, aparece à porta e põe o voto na urna pendurada ao pescoço de um dos membros da comissão eleitoral. Não quer dar o nome mas aceita falar. "Se votarmos, teremos paz e começaremos a viver normalmente. Olhem para as nossas janelas todas partidas. Se votarmos, isto não volta a acontecer. Vivemos a seis quilómetros da linha da frente e eles disparam contra nós todos os dias", responde. Perguntamos quem são os responsáveis. A Ucrânia. A Ucrânia caiu sob a influência da América. É a América que está a liderar isto.

Com a expectativa sobre o que a Rússia fará depois de anexar este território, além de Lugansk, Zaporozhzhye e Kherson, espera-se agora que a ida dos líderes destas regiões a Moscovo formalize o pedido de integração na Federação Russa. De seguida, a Duma estatal aprovará este alargamento do território do maior país do mundo e caberá a Vladimir Putin assinar o decreto que vai oficializar os resultados do referendo.

O presidente russo deve ainda discursar ao país e, eventualmente, apresentar um ultimato à Ucrânia para abandonar estas regiões e, em caso contrário, lançar uma ofensiva, para a qual está a preparar cerca de 300.000 homens.

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