Crônica desde o Donbass: Os baloiços de Gorlovka

Um ataque com rockets, em agosto, atribuído à Ucrânia, matou a pequena Masha, de sete anos, e deixou Polina, de doze, sem um braço e uma perna.
Tonya, com os dois filhos, mostra a foto da pequena Masha (Foto: Bruno Carvalho).
photo_camera Tonya, com os dois filhos, mostra a foto da pequena Masha (Foto: Bruno Carvalho).


O céu está carregado de cinzento e as cores do Outono pintam as árvores desta praceta vazia. O silêncio é apenas interrompido pelas explosões. A arquitectura soviética domina a paisagem em Gorlovka. Enormes edifícios convivem com jardins nesta cidade pró-russa a cerca de 60 quilómetros de Donetsk.

Os equipamentos infantis e de ginástica ao ar livre ainda são imagem de marca. Há-os em todas as partes também no bairro de Stroitel.

Não há nada mais triste do que um parque infantil sem crianças, mas é o que acontece nesta praceta. Ao lado do tronco de uma árvore com uma coroa de flores, há dois baloiços parados e duas mães que choram abraçadas aos seus maridos. Foi há cerca de um mês que uma explosão abriu uma cicatriz na memória destas duas famílias. Para sempre.

Masha, de sete anos, e Polina, de doze, brincavam juntas nestes baloiços quando um rocket caiu na praceta. De seguida, dois projécteis atingiram um prédio e uma clínica. Para além dos estrondos, centenas de estilhaços foram projectados para todos os lados.

A pequena Masha e um homem foram as vítimas mortais deste ataque atribuído às forças ucranianas. Polina foi levada para o hospital em estado muito grave. Sobreviveu mas ficou sem um braço e uma perna e luta contra uma infecção provocada pela penetração destes pedaços de metal na zona do dorso.

Olga, a mãe de Polina, leva-nos ao seu apartamento. No sofá com os seus filhos, Sofia e Matvey, senta-se também a mãe de Masha, Tonya, e a avó Galina. Olga acaba de chegar do hospital em Donetsk. O ambiente é pesado. Indiferente ao momento, há um gato que se espreguiça e salta para o colo de Galina. 

Tonya começa por explicar o que aconteceu. Eram cerca das sete da tarde quando se deram as explosões. “Quando há bombardeamentos, não saímos. Toda a gente fica em casa. Não deixamos as crianças sozinhas. Quando ouvimos alguma coisa, vamos para a entrada do prédio. Mas este era um dia calmo. Nós comprámos gelados para as crianças e sentamo-nos enquanto elas brincavam”, descreve. “As crianças estavam nos baloiços”, precisa Olga. “E de repente, bum, durou um segundo”, acrescenta a mãe de Masha. “Foi isso. A vida inteira arruinada num segundo”, afirma a mãe de Polina.

Com a fotografia da pequena Masha nas mãos e com um mar de lágrimas nos olhos, Tonya recorda que viu a filha morrer-lhe nos braços. “A nossa praceta tem muita vida. Todos os jovens se juntam ali. Também as idosas se sentam a conversar. As crianças correm. É uma praceta muito amigável. Não há soldados aqui, apenas civis”. 

Olga assente com a cabeça e diz que as forças ucranianas disparam sobre civis. “O Ocidente dá dinheiro e armas à Ucrânia, percebe? E eles bombardeiam-nos. Atacam as nossas ruas, os nossos civis, as nossas crianças. Aqui não há nada militar”, denuncia. “O que é que as crianças fizeram de errado? Compreendo quando os soldados morrem, mas as crianças... Se me dão licença... Isto é…”, continua Olga. “Somos uma nação. Somos um só povo. Porque pensam eles que somos terroristas?”, pergunta Tonya.

Infância adiada

Gorlovka tinha quase 300 mil habitantes antes de ter começado a guerra civil em 2014. Com posições ucranianas a poucos quilómetros da cidade, os ataques são diários. Neste momento, é uma das zonas mais quentes do conflito no Donbass. A meio caminho entre Gorlovka e importantes objectivos militares das forças pró-russas como Kramatorsk e Slaviansk, estão Artemivsk [Bakhmut, em ucraniano] e Soledar, onde neste momento se desenrolam batalhas decisivas.

Em 2014, no princípio da guerra, foram muitos os pais que contaram aos seus filhos que as explosões eram trovões. O então presidente ucraniano Petro Poroshenko anunciou num discurso inflamado que deixaria de pagar as pensões aos idosos do Donbass e que bombardearia de tal forma a região que obrigaria as crianças a viver fechadas em abrigos sem poderem ir à escola. Ninguém pensou que oito anos depois tudo pudesse piorar ainda mais.

Não muito longe do bairro de Stroitel, vários adolescentes jogam futebol. Nenhum deles tem idade para se lembrar de como era viver em paz, mas não querem viver fechados em caves como prometera Poroshenko. De vez em quando, ouvem-se explosões e também celebrações efusivas de golos em balizas enferrujadas.

Desde 2014, já morreram mais de 130 crianças na parte controlada pelos rebeldes pró-russos.

Bruno Amaral de Carvalho, Jornalista

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