Putin não tem outra saída a não ser a guerra

Nestes dias de verão, caiu nas minhas mãos o último livro de Victor Davis Hanson, historiador militar norte-americano, que foi traduzido para a nossa língua como O Fim de Tudo. Especialista em história antiga, o autor narra a rápida queda de grandes civilizações históricas, bem consolidadas até então, devido a erros militares ou de cálculo dos seus líderes. O mesmo pode acontecer com Putin, e ele parece não perceber isso. Aparente vencedor na cimeira do Alasca, pelo menos é assim que a maioria dos analistas o apresenta, e eu concordo com eles, Putin não só evitou um cessar-fogo na guerra, como conseguiu que as negociações não fossem interrompidas, o que aparentemente o coloca em melhor posição para futuros acordos de paz. Negociações que envolvem não só a guerra, mas também o futuro estatuto da Ucrânia, desmilitarizada e fora da NATO: é digno de nota que União Europeia, a integração na qual poderia ser um possível prémio de consolação para os ucranianos, nem sequer seja consultada, o que diz muito sobre a importância que esta tem.
Trump ofereceu a Putin uma saída mais ou menos digna do conflito, mas este não podia aceitá-la, muito menos neste cenário, pois o presidente russo precisa de uma vitória clara para apresentar ao seu grupo de poder, se quiser manter a sua influência entre a oligarquia dominante russa.

O que ele obteria seria uma divisão negociada, que não eliminaria a ameaça potencial de vizinhos incómodos, uma vez que persistiria uma Ucrânia independente e muito provavelmente hostil, além de vários outros países, antes neutros, mas agora incorporados à OTAN. Uma divisão que também, pelas próprias características da negociação, não poderia ser vendida aos seus como uma vitória retumbante. Certamente não seria algo que fizesse Putin parecer triunfante aos seus. Objetivamente seria sem dúvida um acordo muito bom para os russos, mas as expectativas eram outras e começariam as discussões na sede da cúpula governante sobre se tal esforço para tal resultado foi justificado. Além disso, caso os acordos sejam concretizados na linha do que foi divulgado a imprensa, o que se conseguiria seria reconhecer o que já foi conquistado, e não tanto apropriar-se de grandes quantidades de terras adicionais. Não parece que Putin possa sair muito fortalecido da concretização de um acordo dessa natureza, e a política russa é muito dura, e é por isso que suas exigências na negociação parecem ter como objetivo prolongar o conflito, pelo menos enquanto ele puder resistir economicamente.

Além disso, existem mais atores no jogo. Não consigo ver a vantagem para os norte-americanos em se envolverem na negociação, pois teriam de garantir a defesa da Ucrânia caso obtivessem concessões de recursos, algo que os russos não gostam. A sua principal vantagem seria poder libertar meios para confrontar a China no Pacífico, algo que não acredito que agrade muito à potência asiática, que também teria de começar a comprar petróleo e gás russo a preços de mercado e não com desconto, como acontece agora. Sem contar que, se russos e americanos chegarem a um acordo, poderá haver uma mudança de alianças a nível global. É claro que a China seria a principal prejudicada por um acordo desse tipo. A perdedora em qualquer cenário será a UE, pois temo que teria que pagar pela reconstrução e fazer algum tipo de acordo comercial com o que restar da Ucrânia. Espero sinceramente estar errado, mas tudo indica que a guerra pode continuar, pois para Putin e seus parceiros é, no momento, a melhor saída.

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