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Crónica desde o Donbass: a vitória celebrada em Mariupol oito anos depois

Com o golpe de Estado de 2014, o presidente não eleito Oleksandr Turchínov ordenou a proibição das celebrações da vitória soviética sobre o nazismo. Ekaterina estava lá e viu como os polícias locais recusaram cumprir as ordens de reprimir a população e se juntaram os separatistas.

No centro, Ekaterina, com duas amigas. (Foto: Bruno Carvalho)
photo_camera No centro, Ekaterina, com duas amigas. (Foto: Bruno Carvalho)

Em russo e em ucraniano, a mesma palavra 'mir' significa paz. Mas agora são as notícias da guerra que ocupam todas as atenções. De um lado e do outro da linha da frente, combatem diferentes nacionalidades, um reflexo da manta de retalhos que sobrou da ex União Soviética. Se a diversidade cultural da Federação Russa é bem conhecida, as diferentes realidades nacionais dentro da Ucrânia parecem não caber dentro daquilo que nos chega através da torrente informativa. Para além de uma presença importante da comunidade russófona, há uma influência histórica a ocidente de países como a Polónia, a Hungria e a Roménia. A gestão territorial soviética acabou por atribuir a região de Donbass e Crimeia à Ucrânia e o pacto de não-agressão germano-soviético acabou por integrar cidades polacas importantes como Lviv também na Ucrânia.

É também Mariupol o retrato desta realidade diversa que durante a União Soviética convivia sem grandes atritos, apesar da presença de forças ultradereitistas conduzidas, entre outros, por Stepan Bandera, sobretudo a ocidente. O esforço da guerra contra o nazismo teve um peso importante na Ucrânia, onde morreram milhões de pessoas. A vitória sobre a Alemanha nazi traduziu-se em celebrações anuais que nem o fim da União Soviética pôde acabar. Até 2014.

O massacre de Mariupol

Com a subida ao poder de Viktor Yushchenko através da chamada revolução laranja, personagens extremistas como Stepan Bandera receberam o estatuto de herói nacional, algo que foi condenado pelo próprio parlamento europeu. Com o golpe de Estado de 2014, o presidente não eleito Oleksandr Turchínov ordenou a proibição das celebrações da vitória soviética sobre o nazismo.

Ekaterina estava lá e viu como os polícias locais recusaram cumprir as ordens de reprimir a população e se juntaram os separatistas. "Eu vinha do cemitério onde a minha mãe o meu pai foram enterrados. O meu pai lutou na Grande Guerra Patriótica", explica enquanto aponta para o edifício da antiga sede da polícia destruído. Houve um tanque que disparou para o interior. Segundo dados oficiais, terão morrido no interior cerca de 30 agentes no dia 9 de Maio de 2014. Desde então, as autoridades ucranianas nunca mais deixaram que se celebrasse esta data. Contudo, esta manhã, pela primeira vez, centenas de pessoas deixaram flores no local. "Nós vivíamos na União Soviética. Era um só país", lembra uma amiga de Ekaterina.

Mapa da Ucrânia. (Infografía: Nós Diario)
Mapa da Ucrânia. (Infografía: Nós Diario)

"Agora vivemos no capitalismo e é cada um por si", acrescenta. São três idosas que passavam pelo local e que têm muita vontade de conversar. Atropelam-se umas às outras. "A Ucrânia seria um país rico se os políticos não interferissem, nem a América, nem a Europa. Agora mandam armas. Por que não enviam ajuda humanitária? Dão armas a Zelensky e dinheiro para nos matarem. Os combatentes do Azov disseram que vinham proteger-nos e destruíram a cidade. Quantos civis morreram?".

Pela cidade são muitos os que atravessam as ruas destruídas com o laço de São Jorge, alguns levam flores. Num dos lugares onde depositam ramos, há uma idosa que se destaca de tudo o resto na sua homenagem silenciosa. Anna Rudova tem 85 anos e o pai morreu em 1945 a combater os nazis como soldado do Exército Vermelho. "Vim para celebrar o Dia da Vitória. Estou a homenagear o meu pai que morreu em Vyeshenki", afirma. Esta mulher, que sobreviveu ainda criança à Segunda Guerra Mundial, assistiu novamente ao horror da guerra. "O meu apartamento ardeu e vivo com o meu neto até à minha casa ser reparada". A pensão não a consegue receber porque teria de o fazer com as autoridades ucranianas, um problema geral de muitos reformados.

A bandeira vermelha

A grande festa estava marcada para o monumento ao soldado soviético com um desfile que incluiu o presidente da auto-proclamada República Popular de Donetsk. É aqui perto que encontramos Sergey e o seu filho Dima com duas bandeiras vermelhas. Durante os oito anos em que esta data esteve proibida, comemoraram em casa, de forma clandestina. Desta vez, agarraram em dois panos vermelhos e saíram à rua.
"A nível estatal, tudo relacionado combo passado comunista foi proibido. Aos poucos, todas as ruas, todos os símbolos foram eliminados", descreve.

Mostram orgulhosos a bandeira vermelha. "Eu formei-me no ensino médio nos tempos soviéticos, em 1991, quando o país entrou em colapso. O que nos foi dito mais tarde... Ficámos chocados. Essa informação contrariava a história dessa bandeira, a formação do Estado, tudo… Mas não me conseguiram convencer de forma alguma. Fiquei chocado. Mas eu entendi que isso não era toda a informação. Para mim, a bandeira vermelha é uma parte do país em que cresci", justifica.

Sergey e o seu filho, com bandeiras vermelhas. (Foto: Bruno Carvalho)
Sergey e o seu filho, com bandeiras vermelhas. (Foto: Bruno Carvalho)

Sergey foi membro da juventude comunista, o Komsomol. Diz que viviam "em paz" e que aquela bandeira "é o futuro". Só que a história desta guerra tocou a todos e também a esta família. "Foi muito violento. Todos aqui têm a sua própria história. Pode ver em que cidade nos tornámos. Está arruinada. Tínhamos certeza de que haveria uma vitória. Mas foi difícil. Nós fomos evacuados a 9 de Abril. Quando a mílicia de Donetsk chegou à nossa rua a 7 de Abril, eu tinha lágrimas nos olhos. Eu estava em choque", descreve.

Foi então que partiram para Mangush, uma localidade ali perto, onde estiveram num centro de habitação temporária. "O principal é que toda a nossa família está viva. As crianças viram o que não precisavam de ver. Graças a Deus continuamos vivos. Agora teremos uma nova vida. Essas coisas nunca serão escondidas em algum lugar em uma caixa, em algum lugar em um armário. Eu tenho minha própria atitude em relação a essas coisas. É uma história inteira".

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