mércores 28/10/20

A cultura proclama no maré a sua presença, malia tudo

Tudo passa e ainda estamos aqui. Isso cantaram Uxía, Miguel Araújo, António Zambujo, Faia, Sabela e Toty Sa’Med no fecho da gala Cantos na Maré em Santiago. Resistimos e, saber que nos temos uns aos outros, é a certeza que fica quando tudo à volta parece abanar-se. A cultura, a música ao vivo, virou mais do que nunca em um acto de criação de comunidade. Mas é preciso, dizia Uxía, mais espaço e mais liberdade para realizá-la. Assim acabou a parte musical do festival maré, herdeiro do Cantos na Maré, no seu primeiro ano em Santiago. 
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Momento do concerto de Miguel Araújo e António Zambujo. (Foto: Maré)

Maré foi, como está a acontecer com a maior parte das programações culturais per causa da Covid, mais íntimo, mais pequeno do que normalmente era o Cantos na Maré em Pontevedra. A climatologia não ajudou. Mais revelou-se não só como espaço de reivindicação e celebração da lusofonia, senão também como um lugar mais de irmanamento, de intercâmbio, de encontro com seguridade também para o público quando o espaço comum se contrai e o medo e a desconfiança ameaçam ganhar à necessidade humana de partilhar, de estar juntos. Dizia o português Miguel Araújo -autor da música Ainda estamos aqui- ao início da sua actuação no palco da maré que era um “crime” que não houvesse mais eventos como este. 

Dois dias antes, Toty Sa’Med anunciava uma canção na língua da sua avó, o Kimbundu, um dos idiomas nacionais da Angola em risco de desaparição se os jovens não se sentem perto dele. “Aqui” -na Galiza- “entendem muito bem o que estou a dizer”, sublinhou. Toty Sa’Med cantou também Meu amor da rua onze, Maldita ou Não fala política, do que será o seu próximo álbum, e lembrou a Sara Tavares -com a que partilhou a música Brincar de Casamento- ou ao recentemente falecido músico angolano Waldemar Bastos, do que fez o tema Teresa Ana. 

António Zambujo conquistou em seguida o público com 'Apelo' ou 'Zorro' 

Essa mesma noite chegou um dos concertos mais especiais da maré com Ugia Pedreira, que apresentou o seu novo projecto, A Pedreira. Ademais de ajudar a Toty Sa’Med a “revisar” a letra de Maldita, cantou em contra da manipulação da palavra, definiu-se como trovadora de aldeia e cantou tamén a Rosália de Castro, a Curros Enríquez ou a Marina Oural, armou-lhe em um minuto um Parabéns para você com o público a Vítor Belho, proclamou-se filha do mar, convocou a etnia dos taberneiros com Uxia e Guadi Galego e Pedro Pascual e, enfim, reivindicou, em alguns momentos acompanhada pelo seu companheiro Pierre mas sobre tudo sozinha com os seus instrumentos e os seus poemas e canções, um jeito de vida mais feliz e sustentável centrado nos cuidados e nas coisas importantes. Tudo com o humor e a energia imparável que a caracterizam.  

Reivindicar os afectos

A brasileira Larissa Baq -La Baq- começou a jornada seguinte do maré com músicas do seu disco Lux como Drama Gris ou Infinita em um concerto muito intimista e minimalista, de execução delicada e com letras muito viradas para a reivindicação dos afectos, como tinha feito também no dia anterior Ugia Pedreira, mas com um estilo muito diferente, e como iam fazer depois boa parte dos músicos presentes no último dia do festival. A maré subiu em intensidade com a apresentação do projeto de Faia, Lar Legido e Nacho Muñoz de homenagem a Zeca Afonso. A aventura começou, tal como lembrou Faia, no pub Modus Vivendi, que lhe propus fazer uma residência. Ela já tinha, no coração e na cabeza, o repertório do Zeca por “imposição familiar” -os seus pais adoravam as suas músicas- e chamou a Nacho e Lar para que a acompanhassem nessa viagem de amor pelas canções do Zeca e pela sua maneira de ver o mundo.

Ugia Pedreira reivindicou um jeito de vida mais feliz e sustentável 

Faia, Lar e Nacho percorreram músicas do Zeca como a Canção da Paciência, Era um redondo vocábulo, Eu vou ser como a toupeira, De não saber o que se espera, Os bravos ou Mulher da erva. Entre os momentos mais emocionantes estivo a interpretação de Maria Faia -à que Faia deve o seu nome- ou do Cantar galego escrito pelo Zeca depois de conhecer Galiza da mao de Benedicto de Voces Ceibes. Além do muito bem resolvido diálogo entre os três músicos ou do virtuosismo técnico de cada um deles -os três tiveram espaço para mostrá-lo-, o concerto evidenciou de que jeito se pode levar a música do Zeca a outro lugar, com a percussão sempre criativa e autênticamente explosiva de um muito expressivo Lar, o domínio dos teclados de Nacho Muñoz e a introdução de instrumentos como a pandeireta e efeitos como o conseguido por Hevi, na mesa de som, na voz de Faia com o Cantar Alentejano. Para não esquecer nunca. 

Recital poético

Na terceira e última jornada da maré, Nacho Muñoz foi o parceiro musical de Carlos da Aira, Raquel Lima, Emma Pedreira e Mercedes Queixas no recital de poesía do ARi(t)mar, integrado na programação da maré. Carlos da Aira começou um recitado muito performativo, apoiado em objetos coma un megáfono, com um poema de A guerra era contra nós. Emma Pedreira leu poemas de As voces ágrafas e Antídoto, Mercedes Queixas de Partituras e a lisboeta Raquel Lima demonstrou a sua experiência com a slam cum recitado de ritmo vibrante com poemas do seu Ingenuidade Inocência Ignorância. 

Chegou depois a gala Cantos na Maré, que começou Sabela. Uxía cantou com ela o seu tema Nai. Faia fez mais uma vez o Cantar Alentejano, em uma versão diferente mas não menos convincente. Toty Sa’Med recuncou com o semba, irmão do samba, e com a lembrança de Waldemar Bastos. António Zambujo conquistou em seguida o público com Apelo ou Zorro. Uxía cantou com ele um emocionante Nem às paredes confesso. 

Miguel Araújo e António Zambujo fizeram juntos uma fermosíssima Catavento da Sé, composta pelo primeiro e incluída no álbum Do avesso do segundo. Araújo tocou depois um dos seus últimos singles, A Incrível História de Gabriela de Jesús, antes de cantar com Sabela outro dos seus sucessos, Balada Astral, do álbum Crónicas da Cidade Grande, que popularizou em parceria com Inês Viterbo. Sabela e Zambujo cantaram juntos Flagrante, do segundo, e Faia repetiu com António Zambujo Mulher da erva. Miguel Araújo voltou com Reader’s Digest, da sua autoria e incluído no álbum Guia de Zambujo. No final, depois do Ainda estamos aquí, esteve, como todos os anos em Pontevedra, o hino do Cantos na Maré, com letras de Karaoke. Mas a noite acabou mais tarde com o tropicalismo atlântico de Bifannah. E venham muitas mais marés.  
 

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