Trump e a Faixa de Gaza

Olhando para as primeiras medidas que o Presidente Trump decretou, fico a pensar se as suas influências políticas não incluirão algumas das ideias do nacionalismo galego contemporâneo, o qual deveria estar a recebê-las um pouco melhor do que está a fazer. Uma das primeiras medidas que adotou ao tomar posse foi pôr fim a todos os projectos eólicos marinhos, que, como aqui, também envolviam o grande capital monopolista do sector elétrico espanhol. Parece ter dado ouvidos às exigências dos grupos de vizinhos que se opõem à expansão da energia eólica e decretou também o fim de todos os apoios públicos ao desenvolvimento das energias renováveis.

O discurso de Trump visa também proteger os sectores produtivos do país, nomeadamente a agricultura, a ganadaria e as indústrias metalúrgica e naval, das agressões das grandes multinacionais estrangeiras que destroem os empregos locais. Velho lutador contra a introdução do espanhol na administração pública e na educação, um dos seus primeiros decretos foi a eliminação do bilinguismo na comunicação pública, tornando oficial apenas a língua própria do país.  Os espanholistas não tardaram a manifestar a sua indignação contra esta medida, exigindo uma administração bilingue, mas o Presidente norte-americano não deu ouvidos às suas exigências. A Mesa pola Normalización Lingüística poderia muito bem dar-lhe um cartão honorário ou algum reconhecimento pelas suas valentes medidas.

Mas onde o lado "galego" de Trump é mais evidente é na sua retranca quando se trata de se expressar. Começou por colocar ironicamente Espanha do lado dos Brics, aos quais sabia muito bem que não pertencia, e continuou quando proclamou o seu desejo de transformar Gaza num resort mediterrânico. Tal como um velho alcaide galego, dos de antes, que não suportava ver uma praia "a poulo", ou seja, sem obrar nem sem desenvolvimentos produtivos, Trump propõe, com ironia galega, transformar uma paisagem devastada num bairro residencial, depois de expulsar os seus habitantes. O resto do mundo leva a sério a declaração (como infelizmente está a acontecer agora na Galiza, já que a nossa retranca, tal como a língua, está em vias de desaparecer) e, com razão, enfurece-se contra a iniciativa, que, se fosse verdadeira, seria logicamente condenável, mas que, na minha opinião, não passa de um exagero retórico destinado a pressionar o lado palestiniano.

Mas, como bom político ao estilo da raposa galega, esconde por detrás da broma um plano muito elaborado para o futuro da Faixa de Gaza, com grande profundidade estratégica e que apresenta uma alternativa ao intratável problema palestiniano. Em primeiro lugar, porque a proposta significa o fim da velha solução dos dois Estados, inoperante desde há décadas, e, em segundo lugar, porque restabelece o domínio de Israel sobre a zona, com o apoio até dos principais Estados árabes através da reativação dos Acordos de Abraão. Uma tal solução significa enterrar a ideia de um futuro Estado palestiniano e abre de novo o caminho à sua colonização. Se ele também conseguir que muitos palestinianos abandonem a região, com os incentivos adequados, a resistência palestiniana ficará seriamente enfraquecida e dividida. Obviamente que não gosto do plano, mas pelo menos mostra capacidade estratégica, e não é uma ocorrência nem Trump é um falabarato. O presidente americano parece ter aprendido dos truques da política galega, e não o deveríamos subestimar de todo, como as vezes fazemos erradamente com os nossos políticos.

Comentarios