Monarquia e nacionalismo galego
Depois da polémica sobre a recepção da medalha pela Infanta Leonor, reabriu-se o debate sobre a monarquia em relação ao nacionalismo galego. O ato, neste caso, é o menos importante, e tampouco nada teria acontecido se a alcaldesa tivesse comparecido. Era outra instituição que atribuía o prémio, não o concelho, e a Infanta também foi indicada de que tinha de comparecer. Imaginem se ela recusasse ir dizendo que não queria ir a sítios onde os nacionalistas governam. Eles também seriam os primeiros a protestar, e com razão. Não creio que ela quisesse passar uma manhã de verão a fazer discursos e a ouvi-los, sabendo bem que são todos puramente protocolares. Mas ela tinha de ir e foi. O nacionalismo de esquerda tinha outra postura e eu respeito-a, mas o que me interessa é saber como é que essa postura beneficia a causa nacional. Sei que noutras nações, como a Catalunha, agem assim, mas nós somos galegos e não catalães e temos de pensar no que é do nosso interesse e qual é a melhor estratégia para o conseguir, e imitar o que se faz noutros territórios, sobretudo quando estes falharam, não parece ser a melhor forma de agir. O nacionalista tem de ser como um peixe na água no seu próprio território, como dizia o camarada Mao, e não ser visto como algo estranho ao sentimento popular da nação.
A primeira pergunta a fazer é por que o debate é sobre a monarquia espanhola, porque parece que o que se está a pedir é uma república também espanhola. Poderia ser um bom debate entre os nacionalistas espanhóis, mas entendo que um nacionalista galego deveria ser indiferente à forma política espanhola. Só seria oportuno levantar este debate se uma determinada forma política em Espanha, seja ela a monarquia ou a república, favorecesse a solução das aspirações nacionais galegas. E é precisamente isso que deveria ser debatido e não o é, porque, caso contrário, poderia até acontecer que o presidente Rueda, mesmo que não fosse essa a sua intenção, estivesse objetivamente a fazer mais pela nação do que forças nacionalistas. É mesmo o que está a acontecer com a língua galega na Europa.
Uma república em Espanha teria alguma vantagem para o nacionalismo? Duvido. Os movimentos nacionalistas mais fortes na Europa encontram-se em monarquias como a britânica, a belga ou a espanhola, enquanto a repressão política das nacionalidades ocorre frequentemente em repúblicas como a francesa ou a italiana. Nas repúblicas, a vontade da maioria tem precedência, e esta maioria pertence quase sempre numericamente à nação dominante, e esta última não atende às tradições ou direitos históricos das nações minoritárias, que, como se pode supor, são pre-democráticos e não dependem do número de votos. Se o presidente da república não tiver poder real, como em Itália ou na Alemanha, será um político reformado de um dos grandes partidos e como tal atuará; se tiver, como em Portugal ou em França, será eleito com um programa político que procurará servir a maioria da população, e que pode ser diferente da maioria parlamentar. É provável que possa limitar o poder dos parlamentos, dissolvendo-os logo que possível se não gostar deles, como em Portugal, ou como em França. Nas repúblicas, os presidentes podem vetar atos do parlamento, o que pode dificultar a negociação de medidas de autogoverno acordadas no parlamento. Imaginemos Aznar, por exemplo, como presidente com o atual parlamento espanhol. Será que alguma das medidas acordadas com o nacionalismo seria aprovada?
Não seria bom discutir estas questões no nacionalismo?