martes 26/01/21

Superficialidade e inconsciência (2)

Dizia a semana passada que superficialidade era viver na inconsciência; viver inconscientes do que somos: relação com tudo.

Por isso, superficialidade tem muito que ver com uma perspectiva fragmentária de ver a Realidade, fronte à visão da Unidade como não-dualidade: só existe a Unidade nas diferenças que apreciamos a cada instante. A superficialidade é uma perspectiva na qual eu me vejo indivíduo isolado do resto da Realidade, considerando esta ao meu serviço: é ver-me como sujeito, e a tudo o demais como objeto para o meu gozo.

A superficialidade é também a perspectiva do self-made man americano; o homem que crê que se fez a si próprio. Quando, na realidade, todos somos seres dependentes desde que nascemos até que morremos; precisamos sempre dos outros/as e do nosso entorno para existir. Até Simão o Estilita –ridiculizado no filme de Buñuel Simón del desierto– precisava para subsistir que lhe levassem a água e as verduras até o alto da coluna na qual estaba isolado, erguido no meio do deserto. Só os insensatos afirmam não dever nada a ninguém, ou que eles se fizeram a si próprios sem a ajuda de outros; em toda a nossa trajetória vital colaboraram multitude de pessoas. A grandeza e o assombro da nossa existência é reconhecermos como todos estamos/somos interrelacionados, imos tecendo redes das quais saímos fortalecidos.

A superficialidade é o contrário de ver a Realidade como o que é: um tecido sem costuras no qual tudo está absolutamente interrelacionado. A superficialidade fragmentária é o contrário da unidade e harmonia da Realidade. E isso não depende da minha vontade, do que eu veja ou não, do que eu pense ou deixe de pensar. Como dizia sabiamente Antonio Machado num dos seus poemas-aforismos: “O olho que vês não é/ olho porque tu o vês/ é olho porque te vê” (Proverbios y cantares).

O próprio Einstein dizia: “A nossa separação dos demais é uma ilusão óptica da consciência”, e esta ilusão é uma prisão para nós; a nossa tarefa deve ser libertar-nos desta prisão para abraçar toda a Realidade.

Superficialidade e inconsciência (2)
comentarios