Venezuela e Trump

No momento em que escrevo estas linhas, não é possível saber o que vai acontecer na Venezuela. Fala-se que o dia em que este artigo for publicado, 10 de dezembro, pode ser um dia decisivo, pois é quando será realizada a cerimónia de entrega do Prémio Nobel da Paz à opositora Corina Machado, já que ela teria que deixar o país para recebê-lo e, portanto, sair da semi-clandestinidade em que se encontra, pois não é comum que alguém escondido possa dar tantas entrevistas como ela tem dado sem que os serviços de inteligência descubram seu paradeiro. Ela recebe o prémio em médio de desinformações sobre se ela reivindicou o uso da força norte-americana para derrubar o regime venezuelano, algo que logicamente parece ser falso, pois seria muito estúpido fazê-lo.

Não acredito que Trump chegue a invadir fisicamente Venezuela, e espero não estar errado, embora ele ameace fazê-lo, mas sim que pressione com ações como ataques a barcos, a aeroportos supostamente dos narcos ou fechando o espaço aéreo. Parece mais uma estratégia psicológica de negociação, tentando que os líderes venezuelanos abandonem o país ou se atraiçoam uns aos outros. Uma guerra aberta não é o estilo de Trump, o mesmo que negociou a saída do Afeganistão, e não seria bem recebida pelo seu eleitorado, que é em grande parte isolacionista e pouco favorável à morte de soldados americanos para mudar governos noutros países. Basta consultar os podcasts da verdadeira direita trumpista ou de médios anti-imperialistas de direita, como antiwar.com ou lewrockwell.com, para comprovar isso. Sei bem que, no imaginário da esquerda europeia, a direita norte-americana se apresenta como muito mais agressiva do que a esquerda, agrupada em torno do Partido Democrata, quando historicamente tem sido exatamente o contrário. Basta recordar o legado de Obama e Biden. Mas isso não significa que a atitude do presidente americano não seja também uma estratégia neoimperialista ou que os Estados Unidos tenham qualquer direito de se intrometer nos assuntos internos de outros países, por mais desagradáveis que sejam as suas políticas ou o seu historial em matéria de direitos humanos. Os Estados Unidos não parariam de se envolver em guerras por todo o mundo, e com muito mais motivos do que no país caribenho. O que Trump está a fazer é ilegítimo e não tem qualquer justificação de acordo com a moralidade ou o direito internacional, que deve procurar a coexistência pacífica entre os povos, cabendo a cada um deles decidir sobre os seus próprios assuntos sem que outros venham dizer-lhes o que fazer.

O que o Governo venezuelano deveria perguntar-se é por que, apesar da evidente ilegitimidade dessas intervenções, quase nenhum dos seus vizinhos ou potenciais aliados na região vem em seu auxílio. Quase todos, incluindo o Governo do Brasil, que solicitou ajuda aos EUA para combater os narcotraficantes, ou o da Colômbia, se apressaram em lembrar que nunca reconheceram a legitimidade do atual Governo e, evidentemente, não se percebe grande oposição popular na região a tal intervenção. Nem mesmo entre os possíveis aliados do Brics, para os quais este pode ser um dos primeiros grandes desafios que enfrentam como organização, parece preocupá-los muito. Mas, se não conseguirem influenciar o desenrolar dos acontecimentos, mostrarão ao resto do mundo que esta ainda é uma organização pouco operacional para constituir uma alternativa real ao atual poder imperial americano.

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