O petroyuan e a desdolarização do mundo

Normalmente, as grandes notícias ou as grandes mudanças de rumo na política ou na economia mundiais não fazem grandes titulares na altura em que acontecem. É claro que as propostas de desdolarização do mundo e de substituição da moeda imperial por outra ou por uma nova moeda criada para o efeito são pouco entretidas e não suscitam grande entusiasmo entre os editores dos meios de comunicação, que preferem abrir com os casos de corrupção, monetária ou da outra, que afetam os políticos espanhóis. Tudo isto enquanto se propõem mudanças substanciais na arquitetura económica e política do mundo, que podem ser adoptadas sem qualquer discussão entre os cidadãos. Mas este tipo de mudanças é o que realmente interessa para o bem-estar ou mal-estar futuro das nossas populações e é por isso que abordo este tema em vez de outros mais divertidos.

É verdade que não se registaram grandes progressos no Foro para além dos discursos dos líderes, e nada se concretizou, exceto um hipotético banco mundial de cereais. A declaração final nem sequer se referiu a mudanças no atual sistema monetário mundial, com exceção de um apelo à utilização de moedas locais nas trocas entre países vizinhos. O que é relevante não é o facto de não se ter chegado a acordo sobre uma nova moeda de reserva, pois essa seria uma proposta demasiado ambiciosa e condenada ao fracasso, mas sim o facto de se falar agora recorrentemente dela. O poder económico do império americano está claramente em declínio, e mais ainda o dos seus parceiros europeus, que já viram como o euro, enquanto moeda de reserva, não ganha peso há vinte anos, sem poder tirar partido da fraqueza relativa do dólar, que perdeu mais de dez pontos nos últimos anos, passando de 70 para 59% das reservas mundiais, sendo substituído por novas moedas como o won, o dólar australiano ou o remminbi chinês. Esta falta de poder económico traduz-se numa clara perda de influência política e militar, já que estas derivam, em última análise, da capacidade de financiar exércitos operacionais ou de exercer pressão comercial. O império é um império basicamente porque é rico previamente, e não por ser um império se é rico, mesmo que a visão oposta prevaleça na mentalidade atual.

Uma leitura do livro Mitos e paradoxos da história económica, traduzido há algum tempo para a nossa língua, do velho Paul Bairoch, esclareceria muitas dúvidas. Quando a perda de riqueza relativa, como no caso dos Estados Unidos, é evidente, a sua moeda perde utilidade e as pessoas começam a procurar um substituto. Aconteceu com a libra esterlina e acontecerá com o dólar. A questão é saber qual a moeda que o podería substituir nesse momento. Se as tendências históricas atuais se mantiverem, o dólar poderia ser substituído a médio prazo pela moeda chinesa, e teríamos então de pagar o petróleo e outros bens em petroyuanes em vez de petrodólares. Uma moeda dos chamados Bric não teria grande expressão enquanto tal, ou bem seria dominada pela moeda chinesa. O problema é que trocaríamos uma moeda imperial e politicamente governada por outra moeda de caraterísticas semelhantes, só que, neste caso, o privilégio exorbitante de que as transações operem na moeda própria funcionaria a favor da nova economia dominante. Não sei se nós, galegos, estaríamos muito interessados nesta mudança e penso que antes de a celebrarmos, como fazem alguns meios de comunicação social, deveríamos meditar sobre qual o modelo monetário mais conveniente para nós enquanto nação. 

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