Frente popular da esquerda catalã
Mais uma vez, verifica-se que os únicos que levam a sério a questão nacional no território espanhol são os partidos de direita. Se não fosse pelas suas diferentes visões sobre como organizar politicamente o Estado, a direita já o governaria há muito tempo. Estas posições variam desde as soberanistas de Junts, PNV e Aliança Catalana até as jacobinas afrancesadas de Vox, que tenhem por certo pouco de direitistas, como lembrou recentemente um porta-voz da extrema-direita soberanista catalã à extrema-direita espanhola, quando questionado sobre possíveis pactos entre eles. A visão política do PP não é clara, pois oscila entre o autonomismo e uma centralização tépida, dependendo do líder que se manifesta. Em qualquer caso, a questão nacional é o principal fator de divisão entre eles, a tal ponto que a direita nacionalista prefere fazer pactos com partidos de esquerda do que com partidos com postulados muito mais próximos social e economicamente. Isso é normal, porque as ideias conservadoras enfatizam a preservação das tradições e dos modos de vida tradicionais e, nesse sentido, estão relacionadas com os nacionalismos de corte europeu, ou seja, aqueles que não derivam de movimentos de libertação colonial, mas sim de reações contra o mundo moderno, ao qual atribuem a culpa pela destruição das antigas comunidades. Não é de admirar a influência da verdadeira direita hispânica, o tradicionalismo carlista, nas suas origens, incluindo o galego, e daí as suas diferenças, pois provêm de tradições distintas difíceis de conciliar.
As esquerdas espanholas são, pelo contrário, filhas do mundo industrial moderno, daí que acabem sempre por se entender, e, portanto, subordinam a questão nacional à questão social, permitindo-lhes chegar a acordos, impensáveis na direita, entre forças (supostamente) soberanistas e forças espanholistas, como a proposta da Frente Popular que, na Catalunha, é proposta polo Sr. Tardá e polo Sr. Rufián, que reúne a ERC, Comuns, Comunistas e a CUP.
Além de que as frentes populares funcionam melhor em sistemas maioritários ou quase maioritários, como o da Segunda República, este tipo de coligações em sistemas proporcionais, como o que prevalece em Espanha para as eleições ao Congresso, não costuma dar bons resultados, pois existem muitas pressões para que os partidos que a integram se fragmentem novamente, como aconteceu recentemente com as marés galegas. São culturas partidárias e ideologias distintas que ainda que possam funcionar contra um inimigo comum bem definido, não funcionam bem quando não existe este ou não se dá uma situação clara de emergência. Além disso, para que um bloco com estas características possa ser considerado uma Frente Popular, deveria, no mínimo, incorporar os socialistas catalães entre os seus membros, o que sem dúvida aumentaria substancialmente a confusão de siglas e dificultaria um programa comum.
Com este tipo de movimentos, as forças da esquerda catalã parecem renunciar ao soberanismo, polo menos a curto prazo, ao mesmo tempo que confessam a sua fraqueza organizacional. O primeiro é bem conhecido há muito tempo, desde que aceitaram colaborar como fiéis aliados do governo espanhol, enquanto o segundo não tinha necessariamente de ser tão evidente. Agora vemos que é, e que aponta para uma tentativa de salvar os escanhos em risco de alguns dos seus líderes, o que implica que já estão a ver as coisas muito mal.