Flotação suja na política europeia

Li que o governo de Milei estabeleceu oficialmente um sistema de flotação suja para o peso argentino. Isto significa que a moeda pode ser trocada livremente por outras moedas, mas desde que não ultrapasse certos umbrais acima ou abaixo, caso em que o Banco Central da Argentina intervirá para equilibrar o seu preço, dentro dessa banda de flutuação. Isto não é uma novidade na política monetária, porque foi e é utilizada noutros países, mas o que é novo é que este tipo de flutuação começa a ser utilizado na Europa, só que aqui este fenómeno não é só na moeda, mas também na esfera política.  Parece que alguém dentro das instituições europeias determinou um teto flutuante para as ideias políticas, quer para um lado quer para o outro, de tal forma que intervém se o eleitorado de qualquer país ousar sair desse quadro e optar por votar numa força política que não se enquadre nos limites estabelecidos. No caso argentino, pelo menos é explícito, sabe-se quais são os limites (entre 1000 e 1400 dólares por peso) e que será o banco central a intervir, mas no caso europeu não se sabe quem vai intervir, as razões que podem justificar a ação ou quais são exatamente as bandas flutuantes permitidas.

Já sabemos que os resultados de um referendo que não agradem aos líderes europeus podem ser ignorados, como aconteceu há alguns anos em relação ao resgate grego, ou obrigados a ser repetidos até que saia o resultado correto. Também é sabido que, se um dirigente político, por qualquer razão, se intrometer no caminho dos poderes europeus, é forçado a demitir-se e a ser substituído por um governante "técnico", como vimos em Itália ou na Grécia, não há muito tempo. A novidade agora é que se atrevem a suspender as eleições ou mesmo a tentar ilegalizar os partidos. Já não são estranhos os casos da Roménia, onde as eleições são suspensas e um candidato popular é desqualificado, para ser substituído por outro candidato com as mesmas ideias, mas muito menos atraente para o eleitorado, ou da Alemanha, onde estão a ser tomadas medidas para controlar e mesmo ilegalizar aquela que é atualmente a principal força nas sondagens, a AFD. A justificação para uma tão grave usurpação da vontade popular não parece estar fundamentada em provas substantivas, mas é evidente que estas forças estão a ser intervencionadas por não serem suficientemente anti-russas para os tempos que discorrem. Um tal resultado enfraqueceria o consenso belicista europeu, algo que não pode acontecer, pois há muito dinheiro para gastar.

Ou seja, qualquer eleitorado que se atreva a quebrar o consenso da NATO pode ser corrigido pela autoridade europeia por não saber votar. O problema é que não está escrito em lado nenhum qual é o grau de discrepância tolerado, para que o eleitorado possa saber comportar-se corretamente, o que na prática significa que a potência europeia pode intervir quando e como quiser. Como já aqui afirmei várias vezes, não sou favorável à causa russa nesta guerra, e estou certo de que a Russia não sairá bem dela, mas isso não me impede de reconhecer que deve haver debate sobre o assunto, como se faz livremente neste jornal, e também que os eleitores, que podem legitimamente entender que os russos não são o inimigo descrito pelos otanistas, não devem ser impedidos de expressar livremente a sua opinião e o seu voto. Este é um mau caminho para a União Europeia, que, se não mudar, porá em causa o seu futuro.

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