O fim do neoliberalismo (mas não do capitalismo)

Na semana passada, com a assinatura pelo presidente Donald Trump dos decretos que impõem tarifas ao comércio exterior norte-americano, parece ter sido decretado o fim do neoliberalismo, pelo menos como o conhecíamos até hoje. Isso não parece ter despertado especial alegria entre os seus críticos, que eram muitos na esquerda e também na direita e na extrema direita. Pelo contrário, muitos dos seus críticos parecem lamentar, incluindo o Partido Comunista da China, que recebeu as tarifas publicando vídeos de Reagan nas redes sociais em que o falecido presidente elogiava as virtudes dos mercados livres. Sendo Trump quem decretou o fim da globalização neoliberal, muitos líderes da esquerda europeia passaram subitamente a criticar as regulamentações ao comércio e a defender os mercados livres de entraves, que era justamente o que criticavam há alguns anos. É claro que nenhum deles esperava que fosse o líder imperial a assumir as suas reivindicações contra a globalização e deixá-los subitamente sem discurso. Por isso, como não foram eles que conseguiram domesticar os mercados, não comemoram o evento como fariam em outras circunstâncias. No final, foi a direita dura norte-americana que acabou com o neoliberalismo e não as lutas populares dos ativistas.

Porque o dano que essas medidas causam ao neoliberalismo é muito grave. Das três grandes liberdades neoliberais, livre circulação de mercadorias e serviços, de pessoas e de capitais, as duas primeiras são severamente afetadas pelo trumpismo. A livre circulação de serviços e de capitais permaneceram praticamente inalteradas pelos legisladores norte-americanos, devido às consequências que isso teria para a economia do seu país e, muito especialmente, para a sua moeda, mas não há dúvida de que as restrições aos serviços e aos movimentos de capitais serão aumentadas tambem a médio prazo pela mudança nos fluxos de mercadorias, caso as tarifas de Trump acabem por se consolidar. Todos os consensos recentes da Organização Mundial do Comércio ou do Fundo Monetário Internacional, como o famoso Consenso de Washington, parecem ter perdido a validade. Organizações, aliás, que foram criadas em Bretton Woods pelo filocomunista Harry Dexter  White e por John Maynard Keynes para dirigir o comércio e os fluxos de dinheiro mundial em escala global  a serviço do império americano,  e que só depois de algumas décadas passaram a apoiar o neoliberalismo, que então se tornara a ideologia norte-americana. Os críticos do neoliberalismo, que escreveram bibliotecas inteiras, terão que voltar a estudar. Não poderão mais atacar o neoliberalismo, que é uma forma histórica do capitalismo, mas ainda poderão criticar o capitalismo em geral, porque este irá sobreviver, sob outra forma, provavelmente pior do que a atual, mas não irá desaparecer. Mas para isso precisam conhecê-lo. O capitalismo é uma tecnologia mental, como bem observou o velho Werner Sombart, e surgiu em pequena escala em algumas regiões da Inglaterra, Itália e Flandres e, a partir daí, espalhou-se pelo resto do mundo. Pode funcionar em qualquer escala, incluindo a de um único país, pois foi assim que começou, só que funciona muito pior, pois os recursos produtivos não estarão tão bem alocados como num mundo em que prevalece a liberdade de circulação de fatores. Duvido muito que estejamos a falar de um fim definitivo do neoliberalismo, pois ele poderia muito bem reviver com outra forma mais adequada ao seu espírito original, mas, entretanto, receio que muitos vão sentir a sua falta.

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