A Europa e as línguas
Não estou triste pelo facto de o governo espanhol não ter conseguido o reconhecimento oficial do galego normativo nas instituições europeias. Lamento isso sim pelas outras línguas que se candidataram a esse reconhecimento. Mesmo que seja meramente simbólico, é por isso que não me agrada. Seria um símbolo definitivo da divisão da nossa língua, a institucionalizaria e dificultaria a reintegração linguística no futuro, uma vez que seria dado como facto consumado que se trata de duas línguas diferentes. E não me agrada o facto de esta divisão artificial ter sanção legal. Também não me parece que seja particularmente útil para a causa da normalização linguística, pois duvido muito que estes textos traduzidos sejam muito lidos, em primeiro lugar devido ao seu carácter especializado e, em segundo lugar, porque aqueles que lêem este tipo de escritos e são sensíveis à língua já o podem fazer perfeitamente, uma vez que a nossa língua, na sua variante internacional, é oficial há já algum tempo. Muitos deles já se declaram falantes nativos de português quando escrevem os seus currículos. Os defensores da oficialização na Europa parecem querer ser reconhecidos como uma língua à parte, o que eu, e penso que qualquer reintegracionista, não podemos aceitar. Exatamente porque é simbólico. Também não o vejo como uma negação da identidade nacional, tal como não vejo a Flandres com a sua identidade nacional esvaída pelo facto de partilharem uma língua com os Países Baixos. Pelo contrário, o seu movimento nacional nunca floresceu tanto como quando se reintegrou linguisticamente com o seu vizinho do norte.
Agora a esquerda está a culpar a direita e a ultradireita por não oficializarem as línguas hispânicas. Isto significaria que Feijóo e Abascal teriam muito poder na Europa e que Sanchez não teria qualquer influência, algo com que não concordo. Países de direita e ultradireita como Portugal ou a Hungria apoiaram a oficialização das línguas, enquanto Sánchez, se realmente quisesse e lhe preocupasse, teria negociado a sério para o conseguir. O que vemos é que Sánchez voltou enganar os nacionalistas catalães, como no caso da amnistia, prometendo cousas que não pode cumprir.
Também é verdade que muitos países europeus não querem esta oficialização, por razões de política interna, e não estão dispostos a ceder gratuitamente neste ponto, nem a Comissão Europeia está particularmente interessada nela. O senhor Feijóo disse muito claramente numa declaração que o que importa é simplificar a administração, e não torná-la mais complexa. É isso que mais me preocupa, porque só posso imaginar que tipo de Europa nos espera no futuro. O espanholismo de hoje não passará de uma anedota em comparação com a homogeneidade linguística e cultural que está na mente dos europeístas governantes. O recentemente falecido James Scott, naquele que é, na minha opinião, o melhor dos seus livros, Lo que ve el estado, afirmava que uma das primeiras ações de um Estado que quer consolidar o seu poder é simplificar linguisticamente a sua população para melhor a dominar. A pluralidade linguística traz problemas administrativos e impede a penetração do Estado em sociedades com outras línguas que não as oficiais. É por esta razão que o seu objetivo é enfraquecê-las e é por esta razão, para além da defesa das tradições culturais e da defesa dos direitos dos cidadãos, que é bom para nossa cultura que o maior número possível de línguas se torne oficial na Europa. Mas sem prejudicar as que já existem.