Espanholismo e dívida autonómica
Sei que nesta última semana há temas muito mais interessantes do que a dívida pública autonômica, como a eleição de um novo Papa, os debates sobre o rearmamento ou os conflitos entre a Índia e o Paquistão, para dar apenas alguns exemplos. Mas estas questões aparentemente aborrecidas são as que condicionam o futuro a longo prazo de uma nação e, precisamente por passarem despercebidas, formam ao longo do tempo uma rede de laços que limitam a sua capacidade de autonomia ou autodeterminação. Precisamente por isso, preocupam-me mais do que os grandes debates que hoje ocupam as primeiras páginas dos jornais e agitam as redes sociais.
Se olharmos para o processo de centralização norte-americano desde a sua independência, podemos ver como o Estado federal foi gradualmente assumindo os poderes das antigas colónias soberanas, até conseguir controlá-las e impedi-las de ter capacidade de decisão autónoma.
Tardiamente, descobriram que já não podiam exercer os seus direitos, o que lhes custou uma guerra de secessão, justificada no seu momento pela questão da escravatura, mas que, na realidade, se deveu também a outros fatores, entre os quais as tarifas que tornavam impossível o comércio co estrangeiro dos Estados do Sul. A dívida centralizada impede que as entidades políticas que compõem a federação decidam o seu próprio nível de gastos, uma vez que é o centro que o decide, e é também um constrangimento em caso de secessão seguindo vias legais, uma vez que tem de acordar a sua distribuição com a entidade central, e esta distribuição não tem de corresponder ao que a entidade política que reclama a separação gastou efetivamente.
A União Europeia está a começar a testar este mecanismo com os famosos Eurobonos, já testados durante a crise da Covid, com o apoio da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu. Recorde-se que, na altura, foi decidido dar prioridade à centralização económica no processo de construção da União Europeia, para que a posterior unificação política fosse mais "natural". Não esqueçamos que o Reino Unido pôde sair da União sem grandes problemas porque este mecanismo ainda não existia e porque os britânicos ainda não tinham adotado o euro, que, como é sabido, não tem um mecanismo de saída estabelecido. E agora vemos que o generoso e benéfico Estado espanhol decidiu, na sua infinita bondade, assumir as dívidas autonómicas, como fez Hamilton no seu tempo, centralizando economicamente para centralizar politicamente.
Creio que não seria descabido, no campo do nacionalismo, discutir estas questões aparentemente técnicas, mas que têm muito mais conteúdo político do que outras, que, embora mais polarizadoras no curto prazo, têm menos impacto na consciência nacional. Penso que se deveria refletir mais, sobretudo por parte dos agentes políticos preocupados com o futuro da nação galega, sobre as questões de soberania económica, pois quem não for capaz de assumir e controlar as suas próprias contas, sem depender das decisões de outros, terá muita dificuldade em fazê-lo na esfera política. Preocupa-me o facto de não haver preocupação com esta questão. Os governos espanhol e europeu parecem estar bem conscientes disso, a questão é saber se os soberanistas o estão também, a não ser, claro, que não tencionem sair um dia do quadro autonómico atual. Mas para o poderem fazer um dia, no futuro, é necessário começarem a fazê-lo já no presente, pensando a longo prazo.