Em defesa das festas do Natal
Anossa velha Igreja Católica sempre demonstrou uma grande capacidade de adaptação ao meio, incorporando na sua tradição costumes e tradições religiosas e culturais pré-existentes. Num processo conhecido pelos estudiosos como eumerismo, incorporou o culto dos antigos deuses locais, associando-os a algum santo cristão, e preservou os antigos lugares de culto, construindo neles igrejas e santuários, mesmo efectuando apenas pequenas alterações. As igrejas cristãs têm altares, por exemplo, porque era isso que os antigos templos tinham, só que agora, graças ao cristianismo, não se celebram neles sacrifícios sangrentos de animais. Foi assim que conseguiram conservá-los. Pensem no que teria acontecido ao nosso passado pagão se tivesse prevalecido outra religião ou doutrina política. Os revolucionários franceses, por exemplo, queriam mudar completamente o calendário, estabelecendo semanas de dez dias e feriados não associados aos tradicionais católicos, que se referem normalmente a fenómenos naturais como os solstícios ou as mudanças na duração do dia e a noite . Felizmente, as suas tentativas de reforma falharam e continuamos a celebrar os nossos feriados tradicionais.
Diz-se frequentemente que a celebração do Natal perdeu o seu espírito tradicional e se tornou numa espécie de apoteose do consumismo. Não seria um momento para se reunir com a família ou celebrar o nascimento de Jesus Cristo, mas apenas uma desculpa para gastar e despilfarrar. Pode ser, mas creo que o cristianismo, tal como em tempos passados, se está a adaptar ao espírito da época e a aproveitar o consumismo (que não é exclusivo das sociedades cristãs e que não precisa das suas celebrações para se realizar) para revalorizar o dia e fazê-lo perdurar no tempo. Luzes, decorações, festas familiares, presentes, seres míticos destas datas como o Apalpador, o Papa Noel ou os Reis Magos, e até músicas típicas destas datas, algumas adaptadas comercialmente, colaboram na tarefa de lembrar ao mundo o significado da data. O cristianismo se adapta aos tempos e, como no passado, chama em seu auxílio os valores dominantes da época, e agora se alia com toda a força do capitalismo para que o dia seja celebrado e bem celebrado. Porque, no fim de contas, mesmo que as festividades tenham sido ressignificadas, continuamos a celebrar um feriado religioso cristão, um dos poucos que é comum a toda a civilização ocidental. Mesmo as crianças ou os jovens sem cultura religiosa, quando observam o magnífico espetáculo do Natal, não podem deixar de se interrogar sobre a origem da festa.
É verdade que o laicismo militante tentou alterar o conteúdo da celebração, tentando neutralizá-la com o insípido “felizes festas ”, ou alegando que celebra o solstício ou a mudança de ano. Maus argumentos pois o solstício celebra-se a 21 ou 22 de dezembro, e não vejo ninguém a celebrá-lo nesse dia, a mudança de ano também é um mau argumento porque o calendário atual é cristão e conta a partir do nascimento de Cristo, e ademáis ninguém entre os secularistas pode evitar o facto de que as festas que deveriam ser felizes continuam a ser as religiosas festividades do Natal. A nossa velha religião soube, como sempre, adaptar-se aos tempos, adquirir as suas técnicas e transmitir a sua mensagem através de meios modernos. E até agora não parece ter sido derrotada.
BOM NATAL.