As contradições da nova ordem mundial

As mudanças na política externa do Presidente Trump desorganizaram os líderes atlantistas e obrigaram-nos a redefinir as suas prioridades, incluindo o rearmamento, à custa de mais dívida, que mais cedo ou mais tarde acabará por se transformar em inflação. Igual que o que aconteceu com a Covid. Estas mudanças obrigaram-nos também a reescrever os discursos ideológicos que sustentam o modelo atual e, embora ainda em estado de confusão, começaram a dissociar-se do aliado americano e a voltar-se para a China e outros espaços, abrandando as suas críticas ao autoritarismo do grande Estado asiático. A China poderia ser uma das principais vítimas da evidente melhoria das relações entre os Estados Unidos e a Rússia, mas até agora não tomou posição sobre o assunto. Parece estar à espera de ver o que acontece no final.

Se a direita globalista ainda está abalada com a mudança, o mesmo acontece com a esquerda e cos defensores da construção de um mundo multipolar que trave o imperialismo dos americanos e dos seus satélites da NATO. Uma hipotética aliança entre russos e americanos, que já está a ser celebrada nos médios russos, não só pelo reparto dos recursos da Ucrânia, mas também os do Ártico e de outros eventuais espaços disputados, colocaria a esquerda anti-imperialista numa situação difícil. Por um lado, o atual desenho dos países Brics ou perde a letra R, ficando assim sem um dos fundadores, com este projeto a ser seriamente prejudicado dado o peso que a potência eslava tinha no projeto. Ou pela contra incorpora a União Europeia no projeto, o que não é previsível a curto prazo, dada a dependência da Europa dos mercados financeiros e comerciais dos EUA e a sua absoluta subordinação em matéria de defesa e armamento, incluindo as bases militares. Além disso, as economias dos restantes Brics não estariam bem integradas na economia europeia e o Euro e o projeto de moeda dos Brics não se integrariam facilmente.

Esta mudança de discurso obrigaria também a uma reformulação do discurso anti-imperialista. Da mesma forma que os atlantistas, agora transformados em ferozes antiamericanos, teriam de justificar porque se rearmam contra o novo amigo do principal país da NATO, a esquerda teria de ver agora os americanos quase como uma força amiga, um possível aliado em muitas causas progressistas em África e na América Latina, ou senão considerar a Rússia uma potência traidora vendida ao grande capital transnacional que abandona os seus parceiros, algo que eu veria como mais provável do que a primeira possibilidade. Não tenho dúvidas de que Putin compreende melhor a Trump e prefere fazer um pacto com ele, o que lhe conviria mais, do que continuar a sua aliança com os Brics. Neste último caso os anti-imperialistas, para lutar contra o novo imperialismo, teriam então a passar a apoiar o rearmamento de Macron, Merz e Sánchez (em Espanha já o estão a fazer) e a defender, juntamente com a Polónia e os países bálticos, a causa da Ucrânia e da autonomia estratégica europeia.

A verdade é que o que poderá acontecer é ainda imprevisível. Pode ser, como sugerem alguns analistas, que se trate de uma estratégia negocial para forçar negociações entre os contendores da guerra ucraniana e depois tudo voltar à normalidade. Mas isso já não é possível, porque mesmo que as alianças tradicionais sejam reconstruídas, nada voltará a ser como dantes, pois os parceiros dos novos amigos já terão percebido que as relações não são inquebráveis e que podem ser deixadas ao abandono, se isso convier às potências. Tudo aponta para uma nova ordem mundial, mas não será a esperada por nenhuma das partes.

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