Armas de Israel

Escusado será dizer que não sou particularmente favorável à guerra económica entre Estados, ou seja, às sanções económicas, nem com Israel, nem com Cuba, Venezuela, Irão ou Rússia, principalmente por razões morais. As sanções só são legítimas, a meu ver, se forem entre Estados ou se forem boicotes livres por parte dos cidadãos, mas nunca se um Estado impedir os seus cidadãos de comerciar com pessoas ou empresas do país sancionado. A razão é que os custos são impostos a cidadãos que, em muitos casos, não só não concordam com os seus governos, como até se opõem ativamente a eles, empobrecendo-os ou privando-os de bens básicos como alimentos ou medicamentos. No caso da suspensão da compra de armas a empresas estatais israelitas, não haveria, em princípio, qualquer objeção moral, dada a natureza do tipo de comércio e o facto de ser conduzido através de organizações diretamente envolvidas na guerra.

A questão é diferente e tem menos a ver com a moral do que com a política e a economia. Politicamente, as sanções não enfraquecem o governo sancionado, mas reforçam-no ao encontrar um inimigo externo, daí o seu sucesso limitado, como se viu na Rússia. Pelo contrário, podem enfraquecer o governo que as impõe, quer porque não as cumpre, como no caso de Espanha, quer porque podem prejudicar os sectores de exportação da economia e afetar os preços dos factores de produção básicos de importação. O caso espanhol é particularmente notório porque, para cancelar a compra, terá de indemnizar o vendedor, ou seja, dar dinheiro a Israel em troca de nada. Isto si que é subsidiar a guerra de agressão israelita.

Como Trump acaba de descobrir, a economia mundial moderna está altamente interligada e qualquer tarifa ou bloqueio comercial é praticamente impossível, uma vez que a cadeia de abastecimento de qualquer bem complexo tem ligações em todas as partes do mundo e, na maioria dos casos, não existe um substituto fácil. Além disso, mesmo que as sanções fossem levadas a sério, nada impede a triangulação das compras a países terceiros, como está a acontecer com a Rússia. As indústrias israelitas produzem não só armas, mas também componentes ou peças de substituição para as mesmas, bem como software de defesa e de informação para uso militar e civil, domínios em que é um país líder. Por conseguinte, é muito difícil encontrar qualquer produto de alta tecnologia que não inclua um componente do país hebreu, como bem sabiam os governantes socialistas espanhóis, que, apesar das suas proclamações de solidariedade, assinaram contratos no valor de centenas de milhões de euros para a compra de armas. E sem qualquer custo para a estabilidade do seu governo, que continuará a ser apoiado pelos seus parceiros defensores da causa palestiniana, algo que Sánchez já tinha aprendido ao observar como se comportaram em relação à sua traição à causa saharaui, que nem tampouco lhe custou um só apoio das forças à sua esquerda.

Não parece que estas tenham sido deixadas em boa posição. Se sabiam dos contratos e os esconderam, isso é mau, mas se não sabiam, é ainda pior, pois isso implicaria que Sánchez e a sua equipa os enganaram a eles e a população, especialmente aos cidadãos de esquerda que confiaram nele como defensor da causa. Se Sánchez começar já a tratar os seus parceiros de esquerda como trata os nacionalistas, receio que as suas promessas ao povo palestiniano tenham o mesmo destino que as que a eles lhes foram feitas.

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