Aliança Catalana
Uma enquisa publicada na semana passada mostrou a espetacular ascensão da Aliança Catalana, força independentista de extrema direita. Sua ascensão se deu principalmente por meio da transferência de votos de Junts, revelando-se a primeira força eleitoral nos territórios de Girona e Lleida, que até agora eram os principais bastiões de Junts e do independentismo em geral. Nos meios de comunicação de Madrid, foi dada importância a este facto na medida em que pode condicionar a decisão do partido de Carles Puigdemont de continuar a apoiar o governo de Sánchez, decisão esta que se revelou mais do que desastrosa, pois perderam a sua imagem de força independentista em troca de praticamente nada, apenas promessas não cumpridas e, o que é ainda pior, promessas autonomistas. No fundo, estas implicavam que, se fossem cumpridas, a Catalunha continuaria a permanecer em Espanha, como a mutualização muito centralista e espanholista da dívida pública autonómica.
Ainda que nos meios de comunicação madrilenhos tenha havido algum debate sobre o auge desta força, é surpreendente que no âmbito do nacionalismo não se tenha debatido mais a questão, principalmente por uma razão: porque altera substancialmente o mapa político catalão e, por repercussão, pode afetar tanto as outras forças nacionalistas como o mapa político geral. Sendo a política um jogo de soma zero, qualquer mudança no cenário político acaba por afetar todas as outras forças e as políticas de pactos em geral.
A novidade neste caso é que a nova força ocupa um espaço ainda inédito. Estamos habituados a uma visão em que as forças nacionalistas ou são de esquerda ou as que não o são, mesmo assim continuam a ser aceitáveis para ela para pactos ou alianças, pois, sendo aliadas históricas na luta contra o franquismo, presume-se que tenham uma certa dose de progressismo que as torna assimiláveis neste espaço. Mas o partido da senhora Orriols não vem da luta contra o franquismo e os seus postulados não podem ser aceites pela esquerda, dado o radicalismo que demonstra em alguns pontos, como a imigração. Se adquirir uma representação parlamentar relevante, isso mudaria muito as possibilidades de pactos, multiplicando a possibilidade de vetos cruzados entre partidos. No âmbito do discurso político, também haveria, sem dúvida, mudanças, pois os nacionalistas de esquerda, se se recusarem a fazer acordos com o novo partido, teriam, em muitas ocasiões, que optar entre as suas lealdades à esquerda e as da nação, porque outra cousa não será, mas a Aliança é um partido claramente independentista e que se inspira nas fontes do nacionalismo conservador catalão. Pensemos, por exemplo, numa hipotética investidura dum futuro presidente independentista para a qual fossem necessários os votos da Aliança. Neste caso, partidos como Esquerra ou a CUP aceitariam os seus votos? No âmbito da direita, as alianças também se complicariam, pois, apesar de a Aliança votar quase sempre da mesma forma que os partidos de direita, em tudo o que não envolve a questão nacional, a verdade é que formar coligações com ela a partir do PP ou do Vox se mostra muito complicado. Mas os seus votos estão lá e condicionam ativa ou passivamente as votações.
O surgimento desta nova força tem a virtude de nos lembrar os partidos que abandonam os seus princípios por pragmatismo. Acabam por ser obrigados a recuperá-los ou a desaparecer do mapa, e muitas vezes pode ser tarde demais, como está a acontecer com Junts.