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Crônica desde o Donbass: Petrovsky: Neste bairro, a morte é uma visita assídua

É um apartamento com vista para a linha da frente. Há uma cratera no tecto da sala de Iuri Vladimirovich que dá para a casa do vizinho. Acima conseguimos ver o céu azul e os raios de sol que entram pelo telhado destruído. O rocket que atingiu este prédio é militar mas quem aqui vivia era civil. Nesse dia não estava em casa. Mas o filho, um amigo e os netos sobreviveram por sorte. “Ficaram a ver as explosões [ao longe]. E depois os projécteis começaram a cair cada vez mais perto. Chegaram aqui e um projéctil atingiu o telhado. E tudo se desmoronou. Se eles tivessem ficado aqui, estariam mortos. Fugiram a tempo”, descreve este idoso de 69 anos.
Petrovsky é um dos bairros de Donetsk mais próximos da linha da frente. Não há um único dia em que não haja um bombardeamento. (Foto: Bruno Carvalho)
photo_camera Petrovsky é um dos bairros de Donetsk mais próximos da linha da frente. Não há um único dia em que não haja um bombardeamento. (Foto: Bruno Carvalho)

Petrovsky é um dos bairros de Donetsk mais próximos da linha da frente. Não há um único dia em que não haja um bombardeamento sobre esta zona da cidade.

Enquanto Iuri nos mostra o apartamento, o bairro treme com explosões. Só durante esta visita, ouvimos o impacto de pelo menos 20 projécteis de artilharia. É uma pesada orquestra que baila ao ritmo da guerra e que tem os civis como primeiras vítimas.

“O céu está limpo. Tapámos um pouco mas o vento destapou. Há água a pingar dali [quando chove]”, afirma enquanto aponta para o telhado. De repente, ouvimos uma grande explosão. Ali bem perto vemos uma coluna de fumo. “A Ucrânia dispara a todas as horas. Eles disparam de Mariyinka, depois de Krasnogorovka”, explica.

Perguntamos se não poderão ser as tropas russas como afirma o governo ucraniano. “Quando estavam a chegar, havia um carro nosso [viatura militar russa] a passar. Estas pessoas estão a disparar contra si próprias? É impossível. É simplesmente impossível de acreditar. Isso é simplesmente um disparate. Isso é propaganda ou estupidez”, garante. “O exército russo está aqui para nos ajudar. Deus lhes dê saúde e que todos eles permaneçam vivos”.

Vyacheslav Gerasimov, vizinho de Petrovsky, morrera pelos bombardeos. (Foto: Bruno Carvalho)
Vyacheslav Gerasimov, vizinho de Petrovsky, morrera pelos bombardeos. (Foto: Bruno Carvalho)

Morte na Rua Ruben Ruiz Ibarruri

As explosões aumentam de tom e despedimo-nos de Iuri. Segundo as redes sociais, durante este bombardeamento morreram dois civis. Deslocamo-nos a toda a velocidade para a casa de uma destas pessoas. Estamos na Rua Ruben Ruiz Ibarruri. À porta desta típica habitação térrea com quintal há um cão que rosna e não nos deixa entrar. Ao fundo, conseguimos ver as pernas de um homem estendido no chão. É uma vizinha que prende o animal para que possamos passar.

Foi ela que encontrou o corpo de Vyacheslav Gerasimov durante a manhã. “Ele é nosso vizinho. Ele não tem família, não tem ninguém”, explica. Repetimos a pergunta habitual: quem é que bombardeou o quintal deste homem? “As bombas vieram, como de costume, do lado das forças armadas ucranianas”. Esta mulher dá a resposta habitual. “Como sempre, é a partir dali. De Mariyinka, naquela direcção”, explica apontando.

“Quem está satisfeito com estas bombas que caem todos os dias e mais do que uma vez? Não é agradável para ninguém. Há oito anos que eles nos bombardeiam. Há já quase nove anos. Vivemos sob bombardeamentos a toda a hora. Não se sabe o que vai acontecer e se nos 
vai atingir”.

Pisamos a folhagem com algum cuidado, com a visão aguçada à procura de minas, e encontramos o lugar do impacto deste projéctil. Os estilhaços atingiram este homem e a sua casa.

Hospital debaixo de fogo

Muitas das vítimas dos ataques contra o bairro de Petrovsky vêm parar ao Hospital nº21, em Oktobyarsky. Dias antes, este centro médico foi atingido por um rocket. Conseguimos ver o impacto no asfalto em frente ao edifício. É uma ferida aberta no alcatrão. Os estilhaços destruíram os vidros da maioria das janelas. Pelo menos dois trabalhadores terão ficado feridos. É por isso que estamos aqui. Queremos conversar com o director hospitalar. Mas, enquanto esperamos, chega um carro a toda a velocidade. O condutor corre para as urgências e pede ajuda. Várias mulheres e homens deslocam uma maca e deitam o passageiro que está sentado no lugar do pendura. Tem as calças escuras tingidas de vermelho. Para trás, à porta do velho Lada, fica uma poça de sangue. Explicam-nos que foi atingido por uma explosão.

Conseguimos assistir aos primeiros cuidados. Os médicos e enfermeiros cortam-lhe as calças e a roupa interior. Tem vários estilhaços nas pernas e nos genitais. Estes pedaços de metal que saltaram em todas as direcções quando o projéctil atingiu a oficina onde trabalha como mecânico escavaram buracos na carne dos membros inferiores.

Depois de atender este homem, Nina Grigorievna, enfermeira nas urgências, aceita falar connosco. Com as luvas ainda com vestígios de sangue, explica que a filha, também enfermeira nesta hospital, foi uma das trabalhadores feridas do ataque contra o hospital. “Ela tinha terminado o turno e estava à espera do carro para ir para casa. O carro estava atrasado. Chegou um projéctil. Ela correu para dentro do edifício e um pedaço de estilhaço atingiu-a nas costas. E a outra rapariga do departamento de terapia foi levada para o centro de traumatologia”, descreve.

Um médico junta-se à entrevista e explica que não é a primeira vez que este hospital é atingido. “O hospital está sempre debaixo de fogo. Em 2014, 2015, 2016... O nosso hospital sofre sempre com os bombardeamentos. Este não é o primeiro bombardeamento. O último foi duro. Os nossos funcionários ficaram feridos e as janelas rebentaram”, recorda.

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