Crónica desde o Donbass: Ucrânia lança minas anti-pessoais sobre Donetsk

Desde junho a situação na cidade se agravou devido aos bombardeamentos diários. Até ao momento, só nesta região controlada pelas forças pró-russas já morreram mais de 350 civis e 1.500 ficaram feridos desde 24 de fevereiro. Agora, Donetsk enfrenta o perigo das minas PFM-1 espalhadas por zonas residenciais.
A minha perna foi arrancada”, descreve deitada numa cama do hospital Liudmila Foshneva, de 70 anos. (Foto: Bruno Carvalho)
photo_camera A minha perna foi arrancada”, descreve deitada numa cama do hospital Liudmila Foshneva, de 70 anos. (Foto: Bruno Carvalho)

“Eu vou afastar-me um pouco porque estas merdas podem dar cabo de uma perna”, diz um soldado da milícia popular de Donetsk enquanto atira uma pedra contra uma mina que acaba por rebentar. Este é um dos muitos vídeos que circulam nas redes sociais sobre este tipo de engenho explosivo.

Veja quem são as vítimas destas minas. São pessoas comuns

São do tamanho de uma mão e pesam menos de um quilo. Verdes ou castanhas, podem facilmente passar despercebidas entre as folhas das árvores e em jardins. Chamam-lhes minas pétala ou borboleta e estão a deixar a população de Donetsk à beira de um ataque de nervos. Têm sido lançadas às centenas dentro de rockets ucranianos sobre zonas residenciais desta cidade maioritariamente pró-russa. Cada um destes projéteis pode levar até 300 minas que se espalham pelo chão depois do impacto. Por poderem ser confundidas com um brinquedo, as autoridades têm receio de que as crianças tenham o instinto de as agarrar.

Segundo a Convenção de Genebra, este é um ato proibido e constitui um crime. Nas redes sociais circulam imagens destas minas em vários pontos da cidade. Apesar dos trabalhos das equipas especialistas em explosivos, andar em Donetsk exige precaução. Com o outono a chegar, os caminhos enchem-se de folhas e cada passo deve ser feito com cautela. Sobretudo, durante a noite.

Desde 30 de julho, 53 pessoas, entre as quais duas crianças, pisaram este tipo de mina soviética que se encontra nos arsenais de ambas as partes. Pelo menos uma acabou por morrer dos ferimentos no hospital. É no centro de traumatologia de Donetsk que encontramos Liudmila Foshneva de 70 anos. Pisou uma destas minas enquanto cuidava da horta na freguesia de Kuybyshevsky.

“Comecei a gritar. As pessoas vieram a correr. Mas a ambulância não pôde vir e o meu genro levou-me de carro”, recorda. “Havia ‘pétalas’ [minas] espalhadas no meu quintal e na horta. Eu não sabia que elas estavam lá. Não estavam antes. Fui à horta, andei dois metros e houve uma explosão. Estava num passadiço cimentado. A minha perna foi arrancada”, descreve deitada numa cama do hospital.

As minas são do tamanho de uma mão e pesam menos de um quilo

Questionada sobre se sabe quem lançou estes engenhos sobre a cidade, é peremptória. “Do lado ucraniano. Uma vez mais, espalharam estas minas. Quando cheguei ao hospital, o meu filho voltou a encontrar ‘pétalas’ no pátio. A Ucrânia é que faz isto tudo. Eles fazem a guerra contra mulheres e crianças. Será normal? Eles são monstros. Os alemães não fizeram o que eles fazem”, denuncia Liudmila Foshneva.

Nos corredores do hospital, o diretor assistente deste serviço, Vadim Onopriyenko, explica que estas minas são especialmente perigosas e que seis dos seus pacientes foram já submetidos a cirurgias de amputação. Os efeitos destas ‘pétalas’ são devastadores e explica porquê: “Esta é uma mina de pressão. Foi criada por engenheiros não para matar uma pessoa, mas para mutilar. Em regra, um encontro com este objeto explosivo termina com a perda do pé. Mas esta mina é ainda mais perigosa porque todas as pedras, toda a sujidade, também o solo, servem como um agentes traumáticos secundários. Todas estas feridas acabam obviamente cheias de complicações”. Segundo este médico, estas complicações acontecem em 85-90% dos casos. Até ao momento da entrevista, doze pessoas tinham recorrido às urgências deste hospital e seis foram submetidas a uma cirurgia de amputação.

Para Vadim Onopriyenko, há falta de formação entre a população para lidar com este tipo de engenho explosivo. Há quem tente neutralizar estes objetos, algo que “pode acabar por incapacitar uma pessoa” porque, como explica, “rasga tecidos moles e tritura os ossos”.

As autoridades ucranianas, como já vem sendo habitual, acusam a Rússia de bombardear esta cidade pró-russa. Indignado, este médico diz que se encontrasse quem tem lançado estas minas lhe diria nos olhos “que está a fazer muito mal” à população civil. “Porquê espalhar minas em zonas residenciais ou em lugares movimentados como a Praça Svoboda? Há ali um grande interface de transportes. Porquê fazer isto? Para intimidar a população local. Veja quem são as vítimas destas minas. São pessoas comuns. Ainda não foi trazido até nós um único soldado que tivesse pisado uma mina destas. São todos civis”.

Em 2020, já em plena guerra civil desde 2014, a Ucrânia recusou destruir este tipo de minas no âmbito da Convenção sobre a Proibição do Uso, Armazenamento, Produção e Transferência de Minas Antipessoais e sobre a sua Destruição, conhecida como Tratado de Otava. Em 2021, este país tinha no seu arsenal 3,3 milhões de minas PFM-1.

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