luns 25/10/21

Comunidade e canzom

Os anos que meus pais regirom o bar do Teleclube de Vilaronte foram lições de feitos comunitários. Esta Parroquia do actual Foz, no século XVIII concelho, tem na sua história viva as experiéncias de cooperativas agrarias em Galiza.  Na década dos 80 meus pais assumiram a concessão do teleclube, um prédio que albergava biblioteca, taberna, palcos e escritórios. Ele entrou en consciéncia plena de movemento outeando os gostos e auséncias da comunidade e ela cantando e interesando-se por boas conversas. Organizaram  atividades para público diversificado, num espazo de alimento- cultura, resgatando eventos coletivos:  o baile, o jogo dos bolos, as partidas de tute e introduzindo um ciclo de cinema super 8, aulas de mecanografia, solfejo, aulas de fotografia e revelado. Promovendo detalhes poliédricos como a encomenda das xúcaras feitas de cerámica Burelarte com os nomes da clientela habitual.  

Na convivência há fusom, conetividade, amoado, em diferentes contextos sociais e dacordo com as parcerias  e a ritmologia da vida pública a que se referia Paul Virilio. Eu imagino uma concomitância entre fazer comunidade ou uma canzom. Você pode se sentar em um estilo ou norma que pode até virar dogma, você pode se abrir para as reminiscências, matinar na espiral, apoiar-se no sentimento, no corpo, na ideia, tanto na hora de colocar palavras quanto nas notas. É verdade que nos embutimos nas molduras, mas elas seguem um caminho ou outro dependendo da elasticidade do conhecimento, ou das permissões que nos damos para laborar. Esculpirmos a própria forma do que já existe. Aproveitando os recursos, apanhar-se com o que hà, respeita-lo. Há quem continua a fazer os regos em proa, e quem invente outros. O canzom e a comunidade têm personalidade própria, seja uma ilha ou um arquipélago, sinapse após sinapse. Uma espécie de liminaridade, como comunalidade genérica entre sujeitos e recursos sociais para além da estratificação que permite a passagem entre uma condição social e outra, entre uma geração e outra.

A forma como nos organizamos e relacionamos  galegos-as coletivamente é um exemplo que não é valorizado, ainda que a análise do próprio ámbito relacional seja digna de estudo, a favor. A empatia de dar e receber com gentileza, o depende como reflexão filosófica circunspecta, cautelosa e madura, o entusiasmo dos oficios que derom oralidade, a malícia e os tipos de humor que carregam a retórica... Tudo isso ao ritmo do clima vivi como  criança quando portava as fontes das malhas com Sanson ou bolachas Maria,  enquanto ia com mama à fonte para lavar as tripas ou ouvia falar dos lobos quando voltavam do molido.  Homens e mulheres de aldeia eficazes, que se complementam, aceitam-se, numa auto-estima que  não se baseia no conforto, nem na comparação, nem na competição, se ponhemor por cima o dever. Fachenda ou supervalorização dariam uma autoestima errada. Como diz Nathaniel Branden, quanto mais flexível uma pessoa é, menos ela se desespera, então aceitamos a inconsistência. Entre o bom senso e a falta de consideração. Aqui vejo o meu povo, na capacidade de improvisação altamente positiva. Estar na corda floja dos opostos. 

Algumas coisas são relevantes e permanecem, outras são esquecidas, emprestadas, colhidas, devolvidas, ritualizadas, assimiladas, integradas ou senom som úteis, desaparecem. Assim a comunidade construe critérios e opiniões, mutantes.  
Entom, qual é o caráter da imaginação coletiva que fluctua no nosso pensamento social?

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