venres 23/07/21

Agora sim, a casa de hortas

Há um par de meses publiquei neste mesmo jornal um artigo redigido com o título de “Casa de Hortas”, a casa familiar de Manuel Maria em Outeiro de Rei, no que minha imaginação perdeu-se de inicio e falei de vinho e lembranças mais que da casa, título que a pesar de todo conservei e prometendo que noutra oportunidade falaria de verdade da Casa de Hortas.

Hoje cumpro. Não parece inoportuna uma referencia ao poemário para mim preferido, que é o da “Terra Cha”, “um povo aqui e outro acolá… o resto é soedá”, com sua capitalidade em Vilalba e vários concelhos, entre eles o de Outeiro de Rei, aos que também Manuel Mª adicou outro poemário. Ambos poemários, o Terra Cha (1953) e Ritual para unha tribu, capital de Concello (1986) ao meu entender complementam-se, e complementam, o dos Sonetos á Casa de Hortas (1997); tal vez tambem A lus resucitada.

Ficamos com os dous primeiros. O Terra Chá; o poeta, que ama a Terra Cha “sempre tan miña… tal como é”, alem de um inicial canto em conjunto, vai debulhando polo miúdo os lugares, regatos, povo, rios, arvores, romagens, cultivos, fauna e flora, as cousas…; todo o que engloba a Terra Cha é motivo de atenção e destaque garimoso; também há uma lembrança ao “cedro da horta da Casa da Horta”. Do “Ritual…” dizia no limiar o amigo, quirogués e também poeta,  Pepe Estévez, que o informava “o jeito idiossincrático de viver num espaço vital concreto, a terra e a tribo outeiral… a maneira de  compreender os temas fundamente existenciais como o tempo, o amor…” Começa o poemário com uma declaração vital de “Ti sabes Outeiro que eu son Hortas…/ Feito son da tua laxe coa que os avos/ ergueron a casa en que nacin”, e rematando “Amote, Outeiro, como non amei/ a terra algunha…”. A leitura resulta emotiva e de tanto descritiva semelha que observas a realidade da terra, dos lugares, das aves e dos montes como se estivesses presente. Não deixedes de deleitar-vos com estes dous poemários.

Bom, pois na Terra Chá e na capital do Concelho, fica a Casa de Hortas. Compreenderdes que falar dela sem referências aos outros dous territorios deixaria incompleto o conhecimento e sentimento de esta casa, que com tanta sensibilidade e tenrura canta e põe em relevo Manuel.

A piques de perder a casa no reparto da herança, Manuel escreveu 40 sonetos nos que refletiam “os mais íntimos sentimentos e ao mesmo tempo facer un retrato -o nosso retrato bom ou ruin- da nossa casa natal”. “Eu nacin nunha casa mui fermosa/ e nela deixei o meu passado/ o tempo da nenez, o sono ousado/ e a miña adolescência tormentosa.”  Adianto que felizmente os problemas resolveram-se e hoje a casa é centro de cultura, de etnografia, de história e de toda a vida física e literária de Manuel e seu entrono.

Da mão de Manuel mostramos a casa. “A nobre antesá da casa é o curral/ de durisimo e firme pavimento…/… que defende á porta e á bufarda/ as chaminés, as fiestras, ao lousado…”. Hoje ali vereies, respeitando sua estrutura e altas vigas, um magnífico auditório onde se celebram moreas de atos culturais. Seguimos pola aira, pola horta, que no seu tempo foi jardim, onde morabam uma aveleira, um cedro, uma nogueira, três cerdeiras, uma pereira, um loureiro e camélias. Atualmente conserva-se parcialmente. Agora passamos ao interior, “foi o comedor da abaixo o preferido/ para xantar de vrau, o resto do ano…/”. Conserva-se como um amplo espaço onde se mostra toda a prolífica produção literária de Manuel correspondência, biblioteca completíssima, cozinha e serviços. Subamos ao primeiro andar, ali toparemos “O cuarto do reloxio era o santuário/ a estância de respecto, a mais cuidada…/…inquedante, cumprido, impenetrabel/ o cuarto do reloxio era o mistério/”. E segue o coarto do relógio “habitado de enigmas, grave e sério”, para continuar polo “longo corredor aberto á vida/ era adorno da casa, a sua sorrisa/”, desde o que continuamos vendo como “…a Chaira inmensa/ semellaba un universo sem confin”.

Na Casa Museu de Manuel Maria, a Casa de Hortas, em Outeiro de Rei, veredes como era uma casa de labregos acomodados e como entre muitos, liderados por Saleta, conseguirem, sem mudar o essencial, converte-la num Centro de Cultura e de galeguidade. Mágoa que neste recorrido poético já não podemos ver o cão Petiso, nem as duas eguas, nem o burro manso, e “nada queda dos gatos na memoria”. Mas fica a Casa. Visitadea.

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