Opinión

25 de novembro: Dia das Guerreiras

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25 de novembro: Dia das Guerreiras

Hoje, 25 de novembro de 1960, três guerreiras dominicanas morrem às mãos do ditador Trujillo, que as procura, sequestra, tortura e mata através de obedientes esbirros. Conhecem-se os nomes e apelidos de todos os envolvidos no caso, que são processados e condenados, mas nunca ingressam no cárcere.

Trujillo: E se mando os meus súbditos para que a conquistem?

Minerva: E se eu conquisto os seus súbditos?

Tres Heroínas y un Tirano, Miguel A. García (1996)


Hoje, 25 de novembro de 1960, três guerreiras dominicanas morrem às mãos do ditador Trujillo, que as procura, sequestra, tortura e mata através de obedientes esbirros. Conhecem-se os nomes e apelidos de todos os envolvidos no caso, que são processados e condenados, mas nunca ingressam no cárcere.

As irmãs Mirabal, conhecidas como as Borboletas - “Las Mariposas” -, eram temíveis opositoras do regime que assolava a República Dominicana, o qual, incapaz de absorver a sua dissidência, decidia eliminá-las pela força. O assassinato provocou uma onda de indignação entre @s [email protected], que se organizaram para a revolta, acabando com a vida do ditador logo no ano a seguir, em 1961. 

"Com certeza houve uma atitude sexista na tortura das Borboletas. Os seus verdugos eram homens violentos, sobretudo por serem soldados do poder estatal com um objetivo violento"

Vinte anos depois (1981) no Primeiro Encontro Feminista Latino-Americano e Caribenho, a data de 25 de novembro foi proposta para celebrar o dia da luta contra a violência à mulher, ainda que as três Borboletas, Pátria, Minerva e Maria Teresa, tinham sido espancadas e mortas por serem perigosas ativistas contra a ditadura. Interpretar a sua morte como um caso de violência de género resta força à luta dessas mulheres porque as mostra como "vítimas" do "homem", em vez de reconhecê-las como bravas guerreiras que pela força da sua revolta levantaram o temor do ditador. 

Mais suspeito é a ONU ter aprovado em 1999, por iniciativa da própria República Dominicana, o 25 de novembro como "Dia Internacional da Eliminação da Violência contra a Mulher". O estabelecimento dessa data como referente da luta contra a violência machista, em vez do dia internacional da luta das mulheres contra as ditaduras tomando como referente o trabalho das três dominicanas, parece mais uma treta dos estados organizados contra a liberdade das pessoas.

Com certeza houve uma atitude sexista na tortura das Borboletas. Os seus verdugos eram homens violentos, sobretudo por serem soldados do poder estatal com um objetivo violento. Mas por isso deve sempre lembrar-se a função dos esbirros embrutecidos dentro dum sistema militar, para não reduzir o contexto das ações que levam a cabo, porque essa redução silencia o facto das três mulheres terem sido, com independência dos seus maridos, importantes ativistas com grande influência entre os seus e capacidade para provocar o ódio do tirano. Foram violadas por serem mulheres e perigosas, não só por serem mulheres.

"Neste dia há um silenciamento da luta contra a tirania, que também é o cerne da violência às mulheres".

Com acerto, uma amiga adverte-nos das portas insidiosas que, indiferentes aos dias “D”, insistem em fechar-se noite após noite levando por diante um olho, um estômago, um lombo imprevisto. Haveremos de trabalhar num emprego em que não nos deixem ir ao banho em 12 horas, em que nos insultem pela orientação sexual, em que não chamem ao médico se quebramos um osso? O dever das pessoas honradas é opor-se radicalmente a essas atitudes, denunciá-las, e impedir por todos os meios que voltem a acontecer. Mas também neste dia devemos conhecer e valorizar o papel das três mulheres na rebelião política e social que ajudaram a construir no seu país. Porque esse é o motivo da sua morte. Esquecer isso não somente vai contra o seu trabalho, senão contra todas as pessoas que participam no esmagamento de qualquer caste de fascismos, incluídos os domésticos.

Hoje, 25 de novembro de 2013, segundo a ONU dia da “Eliminação”, estamos perante algo mais do que uma estultícia administrativa, ou um desleixo das “autoridades”. Neste dia há um silenciamento da luta contra a tirania, que também é o cerne da violência às mulheres. Há uma usurpação do valor das dissidentes e insubmissas, violadas, pode, mas nunca súbditas, que vão à procura de justiça, dessa classe de justiça livre que só se acha nas próprias mãos. É de novo uma violação dos estados a [email protected] nós. Reconheçamo-lo e libertemo-nos do calendário ideológico estatal proclamando o 25 de novembro como o que é: O dia das mulheres guerreiras, das presas políticas, das desobedientes, das anti-sistema, das pessoas rebeldes que procuram todas as utopias. 

O dia em que morreram as três Borboletas nasceu nas gentes de bem o Nunca Mais aos abusos, a sede de dissidência e de rebelião. Sejamos [email protected] da sua memória e acabemos com os tiranos dando-lhes uma lição de soberania, torturemo-los com a nossa insubmissão, esmaguemo-los com a nossa independência.

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