xoves 05/08/21

Desgraça e vergonha (e 3)

Frente à variaçom geográfica do léxico galego, e para além da geral inibiçom mostrada pola RAG (junto com amieiro, comum com o luso-brasileiro, o DRAG também padroniza abeneiro e ameneiro; junto com doninha, comum com o luso-brasileiro, também denocinha, donicela, garridinha e salta-paredes!), o oficialismo ainda realiza freqüentes intervençons despropositadas, ao desconsiderar a coordenaçom galego-portuguesa. Assim, como a monografia supracitada assinala, em cerca de 95 % dos casos de variaçom geográfica, a proposta codificadora da RAG revela-se como nom regeneradora, desprezando, em maior ou menor medida, as variantes áureas do galego, as quais, no DRAG, surgem mais ou menos preteridas ou nom surgem em absoluto: 57 % dos casos apresentam a respetiva variante áurea diminuída (como acontece com doninha, que no DRAG é declarada nom preferente), e em 38 % dos casos a variante galega áurea está ausente por completo, como acontece com rim, suplantado no DRAG por ril. A seguir, dous exemplos patenteiam o prejuízo assim causado.

O desenhista e humorista Pepe Carreiro é autor de Os Bolechas, série de livros infantis editados na Galiza em galego. Os protagonistas dessa série chamam-se Bolechas porque apresentam faces carnudas, e umha face carnuda designa-se, mediante umha das diversas variantes geográficas presentes no território galego, bolecha. No entanto, para introduzir Os Bolechas em Portugal, tal nome tivo de ser trocado por Os Bochechas, porque a correspondente forma supradialetal em Portugal (e no Brasil) é bochecha, e nom bolecha (Os Bochechas Festejam o Natal...). O triste é que, junto com bolecha e outras variantes, na Galiza também ocorre a forma bochecha, que é, como se vê, a variante galega áurea, reconhecida e utilizada polos cerca de 250 milhons de pessoas que no mundo falam variedades do galego-português. Se o Pepe Carreiro, bem aconselhado, tivesse escolhido de início a variante galega bochecha para as suas personagens, ele nom teria tido que lhes trocar o nome para as difundir em Portugal e no Brasil! Mais tristeza: o DRAG nom selecionou como supradialetal nem bochecha nem bolecha, mas outras duas variantes geográficas (façula e moufa), todas recessivas no galego contemporáneo, decisom excludente, esta, por sinal, incompreensível, e tanto mais quanto que a primeira ediçom do DRAG, a de 1913-1928, si incluía entre os seus lemas bochecha! Que desgraça! Este caso de Gz Os Bolechas / Pt+Br Os Bochechas constitui um exemplo do efeito projetivo a que os galegos estamos a renunciar pola falta de coordenaçom (lexical, lingüística) galego-portuguesa. Ora bem, junto com o efeito projetivo, a coordenaçom lingüística galego-portuguesa também acarretaria para nós um benéfico efeito injetivo: ao consagrarmos e socializarmos em galego a variante galega bochecha como supradialetal, junto com muitas outras comuns à Galiza e ao ámbito luso-brasileiro, também favorecemos na Galiza a receçom dos textos e produtos culturais (e nom só) da Lusofonia. Assim, p. ex., os galegos nom teríamos qualquer problema —como si, em larga medida, temos agora— para entendermos a alcunha O Bochechas que em Portugal era aplicada ao político Mário Soares.

No quadro da cooperaçom transfronteiriça que tem lugar no seio da Uniom Europeia, um organismo importante para a Galiza e para a Regiom Norte de Portugal é o Eixo Atlántico do Noroeste Peninsular, o qual se chama oficialmente dessa maneira, ou Eixo Atlántico, porque, tanto na variedade galega como na lusitana do galego-português, a palavra latina axis se transformou na vernácula eixo. Ora bem, no galego contemporáneo, junto com eixo, concorre a variante eixe (que também tivo presença na história do galego-português de Portugal e do Brasil, antes de ser porstergada em benefício de eixo, consagrada como supradialetal), o que nom obsta para que, na Galiza, eixe nom seja a variante selecionada para dar nome ao organismo transfronteiriço, e si, de modo lógico e prático, a forma comum galego-portuguesa, e variante áurea galega, eixo. Desgraça: a RAG, no seu dicionário, nom envergonhada o suficiente com propor-nos a variante eixe como forma supradialetal galega, ainda tem a desfaçatez de declarar a variante áurea galego-portuguesa eixo como «forma menos recomendable» !Que vergonha!

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