luns 13.07.2020

As Encrovas como exemplo do ‘green colonialism’

Com a crise do petróleo de 1973 o franquismo reestruturou o setor energético através de um plano de apoio ao carvom com todo tipo de facilidades. Em consequência, a Fenosa reorientou a sua estratégia cara aos combustíveis fósseis, iniciando o conflito das Encrovas. Décadas depois, o Governo instala a incineradora de resíduos de Sogama na mesma paróquia e a escassos metros da central térmica, produzindo eletricidade para a mesma empresa. Entre as duas, na paróquia das Encrovas estavam a emitir em 2015 mais CO² do que sessenta países de todo o mundo, com uns custos ecológicos e sociais altíssimos. Depois dos momentos mais mitificados da luita de finais dos anos 1970, o conflito continuou numha guerra de trincheiras entre Fenosa e a comunidade sobrevivente, em que a primeira foi devorando casas e aldeias. Sem nengum plano de transiçom para o póscarvom, o esgotamento do lignito ainda deu num conflito laboral em que a empresa chatangeou a Administraçom pública usando os trabalhadores como reféns.

Depois de todas estas décadas de prejuízos causados polo oligopólio este apresenta agora, sob a etiqueta da energia verde, dous projetos de megaparques eólicos na paróquia: o chamado “Meirama”, da Gas Natural Fenosa, e o “As Encrobas”, mui perto das casas e dos quais parte umha aranheira de alta tensom. Algumha destas moradas já estám atrapadas entre a central térmica, Sogama, o parque de carvom e as linhas de alta tensom por riba das suas cabeças. Som casas em que ainda hoje prevalece um modo de vida altamente ecológico, gente que produze a maioria dos alimentos que consume e mais bem pouco dada a essas viagens de cruzeiro que emitem mais CO² países inteiros.

Falando da “sustentabilidade colonial”, Alberto Matarán sinalava que “é profundamente injusto e paradoxal que as comunidades campesinhas e os povos das regions periféricas, que som quem menos se beneficiárom do desenvolvimento gerado graças à utilizaçom dos seus recursos, tenham que levar a pior parte da transiçom energética”. Essa é a situaçom da gente das Encrovas enquanto umha parte do ecologismo fai o jogo ao greenwashing das mesmas energéticas que até agora obtiveram grandes lucros através do carvom e fazendo todo o possível por manter sequestradas as tecnologias renováveis (antes chamadas, nom por acaso, “energias livres”) de maneira que estas nom se pudessem democratizar: fazendo lobby para criar o “imposto ao sol”; para suprimir a figura do “parque eólico singular”; e para que, entre 2009 e 2011, a Xunta reduzisse drasticamente todas as ajudas para instalar energias renováveis nas vivendas. Assim, o oligopólio foi funcionando a golpe de acumulaçons por despossessom, apropriando-se do elemento chave do setor –o tendido elétrico– e absorvendo pequenas produtoras, obstaculizando assim o desenvolvimento de um modelo elétrico limpo, local, cooperativo e descentralizado. Tendido elétrico amiúde erguido de maneira comunal, pois as grandes empresas alegavam que lhes resultava mui custoso levar a rede às aldeias. Assim, em paróquias próximas às Encrovas, como a de Lesta, as mesmas vizinhas que foram expropriadas para a construçom da barragem de Vila Gudim, auxiliar da central térmica,  tiveram que mobilizar-se depois para obrigar a empresa a abastecê-las de luz. Umha vez feito o tendido, a empresa apropriava-se dele toda vez que impunha uns gastos de manutençom tam altos que fazia impossível que a vizinhança conservasse a propriedade. Aliás, antes de vir a central quase todas as aldeias encrovesas estavam eletrificadas através dumha linha procedente de umha pequena e pioneira hidroelétrica, e mesmo nos anos 1950 já havia luz durante algumhas horas pola noite em muitos lugares da paróquia, graças à turbina do Poço da Luz. Se se entender a soberania energética como a capacidade dumha comunidade para gerir democraticamente a planificaçom, produçom e distribuiçom da energia que consume, é claro que as Encrovas retrocedeu, pois antes havia disponíveis, de forma embrionária, uns modelos de produçom que modernizados e desenvolvidos suporiam umha grande ventagem para os desafios de hoje.

As Encrovas como exemplo do ‘green colonialism’
comentarios