venres 18/09/20

Mesmo com toda a crise, prefiro viver na Galicia

Ainda que eu já tenha percebido há algum tempo as inúmeras vantagens de viver aqui, venho, desde que cheguei a primeira vez de mala e cuia do Rio de Janeiro observando, com olhar crítico, minhas duas realidades: Galicia e Brasil.

Ainda que eu já tenha percebido há algum tempo as inúmeras vantagens de viver aqui, venho, desde que cheguei a primeira vez de mala e cuia do Rio de Janeiro observando, com olhar crítico, minhas duas realidades: Galicia e Brasil. Sei que é uma comparação injusta se levarmos em consideração fatores geográficos, demográficos e econômicos. O Brasil tem 202 milhões de habitantes, uma extensão territorial de 8 515 767,049 km² e um salário mínimo de R$ 720. Já na Galicia somos um pouco menores: 2 762 198 habitantes, 29 574 km² de território e um salário mínimo de 750€. Muito embora eu pudesse comparar o Brasil à Espanha e buscar uma maior aproximação. Mas, para este artigo, já me bastará, de sobra, a Galicia.

Admito, e sei, que seria muita estupidez da minha parte fazer uma comparação a partir desses dados que já falam por si...Será? Enfim. Não se trata de uma competição ou ranking dos melhores lugares para se viver, que é típico desses sites de estilo de vida. Está claro que o melhor lugar para viver é aquele que você se sente bem e ponto final. 

"Aqui não é o país das maravilhas. Mas, tampouco, te roubam ou te assassinam numa esquina porque você usa joias, relógio ou está bem vestido".   

Mas a minha comparação é direcionada em aspectos específicos, que no geral resultam em grandes benefícios para o país e, sobretudo, para o cidadão enquanto ser pensante, que cumpre suas obrigações e sabe exigir os seus direitos. Estou falando do galego, na Galicia.

Inicio com o que me chama mais atenção aqui e acho que para qualquer um que chega do Brasil: o poder de consumo. Um cidadão galego, independentemente de sua classe social ou financeira, tem acesso irrestrito aos bens de consumo. Ele vai do ovo ao camarão e do suco de laranja a um bom vinho com a mesma naturalidade do falar. Passa fome quem quer. Comida farta na hora do almoço: 1º prato, 2º prato, pão, bebida, sobremesa e café. Tudo pelo mesmo preço da comida parca que colocamos no prato num restaurante self-service de Ipanema. Claro que pão, bebida, sobremesa e café não estão incluídos em Ipanema. 

Em época de “rebaixas”, compra-se roupa a 1€. Uma verdadeira loucura. Sacrificar-se em inúmeras prestações para comprar um sapato? Impensável. A forma parcelada de comprar e pagar em inúmeras vezes, ludibria somente o consumidor brasileiro que paga altos preços para ter acesso a determinados bens. Caso contrário, morreria seco. Exemplo importante, porém não fundamental, é o preço do iPhone 6 que aqui na Espanha custa 699€ (R$ 2.100) e no Brasil pode chegar a R$ 4,399,00 (1.466€). 

Tampouco passa pela cabeça de um galego pagar o valor de seu salário mínimo para assistir um show internacional, ou desembolsar R$ 15,00 (aprox. 5,00€) para comer um bolinho de bacalhau, sentando num bar tomando uma cerveja. Petiscos na Galicia é cortesia da casa e confesso que acabei ficando mal acostumado (risos).

Ando pelas ruas e percebo a civilidade e a boa educação emanando das pessoas. Sujeira na rua? Só aquela folha da árvore que acabou de cair e que logo será retirada. Esqueceu a porta do seu carro aberta? Não se preocupe, ele estará lá quando você voltar. Vem vindo alguém em sua direção, numa rua escura, às 3h30 da manhã? Provavelmente irá te cumprimentar. Faixa de pedestre? Sim! O pedestre usa e é respeitado. Não! Aqui não é o país das maravilhas. Mas, tampouco, te roubam ou te assassinam numa esquina porque você usa joias, relógio ou está bem vestido.   

Ouço dizer que a Europa está em crise. A Espanha não é mais a mesma. A Galicia está um caos. Realmente. Observando o estilo de vida que os galegos estão acostumados a levar, com o que vejo hoje, digamos que a crise aqui está bem forte. Semelhante aos primeiros dias do mês de pagamento no Brasil, quando você passa em frente ao supermercado ou passeia um sábado à noite no shopping.

Confesso que foi me dando uma certa tristeza à medida em que fui escrevendo este artigo, porque sei do potencial do Brasil e de suas inúmeras riquezas e possibilidades. Sei, também, que tudo que foi descrito aqui poderia acontecer no Brasil tranquilamente. Não é impossível. Mas atualmente está sendo. O Brasil não é um país ruim. Ele ainda não foi realmente descoberto e, por isso, é mal aproveitado.

Eu chorava de saudades da Galicia: Quando nos 15 meses em que passei em São Paulo durante a última temporada do espetáculo da companhia e eu entrava no supermercado para fazer compras e me deparava com uma peça de queijo que custava R$ 450,00 (150€);

"A Galicia está um caos. Realmente. Observando o estilo de vida que os galegos estão acostumados a levar, com o que vejo hoje, digamos que a crise aqui está bem forte".

Quando eu andava pelo centro da cidade de São Paulo e a população de rua dormia no meio da sujeira e acompanhada de inúmeros ratos e baratas que abriam caminho para eu passar; 

Quando uma mulher estrangeira ficou sem roupa e traumatizada porque parou na frente de um edifício invadido por sem tetos no centro da cidade de São Paulo para pedir informação e quase lhe arrancaram o fígado; 

Quando em determinados bairros do Rio de Janeiro é comum você ir à padaria e, entre um pão de queijo e outro, assistir a uma troca de tiros entre traficantes e policiais que precisam dar cumprimento ao programa social do governo de pacificação das favelas;
 
Quando você recebe R$ 800 (260€) de salário mínimo, mas tem que pagar um aluguel de R$ 1.500,00 (500€) e lê no jornal que um juiz de direito recebe, por mês, R$ 25.000,00 (8.300€) por mês e, não satisfeito, pede mais R$ 7.000,00 (2.333€) de ajuda de custo para matricular seus filhos num colégio particular; e

Quando você percebe que tudo isso já está demais e resolve sair do país. Foi o meu caso.

Se partirmos do princípio de que um país é o reflexo de seu povo, podemos afirmar que o Brasil só está assim, numa situação vexatória, porque o próprio povo aceita a sua condição de submissão. Vejam o resultado das últimas eleições no país: o povo optou pelo conservadorismo e moralismo, elegendo para cargos políticos pastores e ex-militares com a ditadura fresca na cabeça. E para dar um último tiro de misericórdia, alguns transeuntes pedindo, nas ruas de São Paulo, intervenção militar no país, com a falsa noção de que assim serão resolvidos os problemas do país. Em outras palavras: com o uso da força e da intolerância assim como vi os próprios manifestantes agindo.

Então meus amigos, de tudo isso só posso concluir que: Entre um país em desenvolvimento e um país em crise, mesmo com toda a crise, eu prefiro viver na Galicia.

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