luns 19/04/21

Cidades, urbanismo e novo modelo económico

Nas cidades acontecem a maioria dos movimentos sociais que têm a capacidade de mudar as regras do jogo no comportamento humano. Mas, a cidade tem seu lado avesso com zonas de grandes acumulações de matérias, energia e privilégios convivendo com outras onde as carências são a norma. Boaventura de Sousa as denomina “zonas de sacrifício”. São territórios opacos para a justiça social e ambiental. As cidades são as grandes consumidoras de recursos. Num momento de crise ambiental e social, de deterioro económico e do Planeta. Nas cidades a crise ambiental fica menos evidente porque a urbe amortece as suas consequências. No entanto são as cidades os principais focos de desestabilização ecológica. Esta tem a sua raiz no próprio modelo urbano. São o primeiro fator de globalização. Porque numa cidade oferecem-se bens que podem proceder de qualquer parte do mundo, sem que no seu preço apareça a pegada de carbono que isso implica. Os aquecimentos ou o ar condicionado produzem um grande consumo de energia e diretamente uma ilha de calor.

O modelo urbano atual limita o “verde” (padecemos uma síndrome arboricida) para favorecer as superfícies reflexivas como grandes blocos de apartamentos, praças cimentadas com ausência de espaços verdes que puderem temperar o clima. As diferenças entre os bairros da cidade, os privilegiados e os obscuros, zonas opacas ou de sacrifício, necessários para que os lugares visíveis e luminosos tenham lugar, ficam separados polo abismo social: São as cidades abissais. Mas também apresentam uma oportunidade, porque lá é que se podem articular as resistências e as alternativas. Devemos preservar as cidades como territórios com poder para travar problemas globais como cambio climático, racismo machismo. As cidades são o espelho em que se mostra a origem de nossos retos como sociedade. O capitalismo, o patriarcado, o racismo que sustentam uma economia colonial baseada num modelo de poder na dominação de outros seres humanos. Mas nas cidades pode articular-se o associativismo que consiga pór luz nas zonas obscuras e compensar a zona abissal.

Em Amsterdam um novo modelo urbano está agromando. Liderado pola Teniente de alcalde, concelheira de sustentabilidade Marieke van Doorninck, com a participação da cidadania. É o modelo de Donuts baseado nas teorias da economista Kate Raworth que substitui o conceito de PIB por um modelo do preço real dos bens de consumo. Não há que ter tantas cousas. Há que ter o necessário para uma vida digna sem danar o ambiente em que se produzem. A pegada de carbono, o gasto de terra o energético e social de cada produto incorpora-se no preço. Minimizando os resíduos. De maneira que os bens de consumo devem garantir a nossa saúde e a saúde do planeta em que vivemos. É um modelo que contabiliza todas as externalidades que intervêm na elaboração de um produto: Água, ar, solo, energia, carbono, etc., é dizer, como vimos defendendo desde a ecologia, a pegada ecológica deve ser incorporada no custo de qualquer produto. E é urgente reduzir a nossa pegada ecológica porque o planeta Terra chegou ao ponto da sobrecapacidade. Estamos em dívida ecológica a respeito do nosso planeta: Gastamos mais do que repomos. A construção sem qualquer limite é um dos custos ambientais que na Galiza estamos a pagar bem caro e a Terra também. Esta não dá digerido todos os seus refugalhos que se geram de jeito irresponsável.

O Urbanismo esqueceu a sua função social para preferênciar a função de negocio. Prédios, ruas e estradas que no seu excesso cruzam o território provocando barreiras para pessoas e animais, cortando os cursos de água e tornando estéreis grandes quantidades de terreno. O caso de Lugo é paradigmático. Com três vezes mais vivendas desocupadas do que ocupadas, continuam desde o Concelho a planificar novos bairros. No bairro de Sam Fiz talaram-se as carvalheiras para serem substituídas por ruas com faróis que consumem luz e a ninguém alumiam. Promovem bairros de chalets que provocam uma massiva afluência de carros na cidade incrementando a poluição atmosférica e a ilha de calor.

Em geral, na Galiza esta-se a urbanizar sem ter em conta a crise ambiental e social, atuando ao serviço do: capitalismo, colonialismo e modelo patriarcal. Cumpre a cidadania articular a luta contra esses destrutores substituindo a atual resistência fragmentada por ações coordenadas e efetivas que nos permitam construir um futuro habitável.

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