O Fórum Socialismo 2016 arranca com reflexão sobre o golpe no Brasil

A sessão de abertura do Fórum Socialismo 2016 destacou a atual situação política no Brasil, com a participação de Joana Mortágua e do deputado do PSOL Jean Wyllys.

O jornalista e escritor Jean Wyllys, deputado federal eleito pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) do Rio de Janeiro, foi o convidado especial para a abertura do Fórum Socialismo e começou por assinalar a convergência na análise da situação política no Brasil entre o seu partido e o Bloco. Em seguida, referiu-se ao momento político atual, com o julgamento de Dilma a decorrer no Senado brasileiro: “O espetáculo destes dias no Senado repetiu o da Câmara de Deputados, agora com o presidente Renan Calheiros a confessar tráfico de influências em frente de um ministro do Supremo Tribunal Federal, sem que a imprensa diga nada”, resumiu Wyllys.

Crítico da gestão de Dilma, Jean Wyllys destacou que “a grande mídia dispõe de um exército pronto a difamar o Partido dos Trabalhadores (PT) em todas as coberturas”, o que aconteceu no início da investigação policial à corrupção no interior da Petrobrás, com uma narrativa que associava os casos apenas a elementos com ligações ao PT. Para o deputado brasileiro, o que se assistiu nos últimos meses e foi visível em algumas manifestações públicas das forças mais conservadoras – que incluíram mensagens de pendor fascista – foi a mistura da narrativa da corrupção com o ataque a outras bandeiras dos governos de Lula e Dilma que as elites abominam. E deu exemplos: o combate à pobreza e ao racismo ou o empoderamento das mulheres e da comunidade LGBT. Foram lançadas as sementes para uma mistura explosiva que abre campo à intolerância e ameaça a própria democracia, acrescentou.

O processo em concreto contra Dilma assenta “numa falácia”, no entender de Jean Wyllys

O processo em concreto contra Dilma assenta “numa falácia”, no entender de Jean Wyllys. A razão é simples: o famoso “crime de responsabilidade” de que é acusada é inexistente, refere o deputado. E as escutas divulgadas pela imprensa a alguns dos arquitetos do impeachment confirmam que o objetivo da substituição de Dilma foi o de travar a todo o custo a operação Lava Jato, que envolve a cúpula dos maiores partidos da direita brasileira. Wyllys destacou ainda que foi com os governos do PT que as investigações judiciais passaram a ter autonomia.

Quanto às reformas prometidas pelo governo golpista, o deputado do PSOL diz que “elas implicam passar os custos da crise para os pobres e os trabalhadores”. O congelamento do investimento público em Saúde e Educação foi outra das medidas já anunciadas pelo governo atualmente em funções, que Wyllys acusa de estar “ao serviço das elites económicas, de que fazem parte as sete famílias que controlam os principais media do país”.

Joana Mortágua (Bloco) afirma que a estratégia do PT de pactar com partidos da direita como o PMDB "falhou" 

Na sua intervenção, Joana Mortágua recordou o debate no parlamento português em reação ao golpe parlamentar que tirou Dilma Roussef da presidência do Brasil, com a direita a acusar quem se opôs ao golpe de estar ao lado dos corruptos. O que se seguiu, lembrou a deputada bloquista, foi a associação de quase todos os golpistas a casos de corrupção no Brasil. O resultado foi a travagem da operação Lava-Jato, mas sobretudo a “descredibilização do sistema político brasileiro”, com quase todos os atores políticos a caírem nas malhas das investigações policiais.

“Durante 15 anos, a direita brasileira não conseguiu disputar um projeto para a Presidência do Brasil e agora junta-se para o assalto ao poder e a imposição de uma agenda conservadora de destruição de direitos”, através do impeachment em curso e com o apoio dos media, prosseguiu a deputada do Bloco.

“Um dos grandes desafios da esquerda no Brasil é provar que pode haver políticos de mãos limpas e política limpa”, defendeu Joana Mortágua. “O golpe alimentou-se de tudo aquilo o que o PT não fez durante estes anos e contraria as aspirações sociais que o PT ignorou”, acrescentou, referindo-se aos movimentos sociais que se manifestaram em 2013. “A estratégia governista do PT – com alianças com  partidos como o PMDB – falhou”, concluiu a deputada do Bloco.

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