Opinión

Igreja e tolerancia

Por laicos que nos poidamos considerar, o certo é que a sociedade nos impede ilhar-nos da vida religiosa, bem polos traumas juvenis da época do nacional-catolicismo franquista, bem porque a Igreja católica nunca afrouxou a sua influência social e política, sempre à beira do poder, inimiga do progresso, do evoluir da sociedade, obscurantista e omnipresente (mais do 60% das festas de interesse turístico no Estado são de carácter católico), assim que inevitavelmente li num jornal de Vigo, que o Sr. Bispo tinha manifestado que “temos que ser uma Igreja aberta e oferecer caridade”, não sei se como projeto de futuro, pois de presente só lhe reconheço a caridade liderada por homens e mulheres bons que há em toda comunidade e que como instituição melhor veria que predicassem a justiça. E falta a palavra “amor”.

O fio da frase foi-me levando ao novelo da Igreja na sua história, as guerras que propiciou, a dor que ocasionou com aqueles processos da Inquisição, qualquer cousa menos transparentes e caritativos, a destruição da arte ou costumes dos povos com os que não comungava, a insolidariedade e desumanização dos muitos dos seus dignitários; não é preciso remontar-se muito, aqui, na Galiza, temos recente sua colaboração fascistoide com Franco e inda vigente seu desprezo pola nossa língua.

Mas também seguindo o fio cheguei a tempos atuais e a esperança (duvidosa) que desperta o papa Francisco, muito oprimido polo ultracatolicismo, pero com amostras de sensibilidade e humanidade. Francisco entende o amor; por isso perguntado numa ocasião sobre as parelhas homossexuais respondeu “quem sou eu para julgar?” e também “as pessoas homossexuais tem direito a estar numa família. São filhos de Deus”. Inda sem dar o passo (que semelha muito improvável) a ser abençoadas, já a Congregação herdeira da Inquisição, a da “Doutrina da Fé” fechou toda possibilidade com a frase “A Igreja não dispõe, nem pode dispor, do poder para abençoar uniões de pessoas do mesmo sexo”, coutando também deste jeito a profunda revisão que da moral sexual tradicional iniciou a Igreja Alemanha. Há curas rebeldes que já se mostraram dispostos a abençoar uniões homossexuais a pesar do veto do Vaticano.

O professor Carlos Callón, no seu importante ensaio Amigos e sodomitas, manifesta que “Durante os mil primeiros anos do cristianismo não há nenhuma palavra para referir-se ao posterior pecado da sodomia, nem inda na prédica de Jesus Cristo. Os prejuízos homófobos nascem no século XI e se consolidam na Baixa Idade Media”. O cristianismo nas suas origens era tolerante com as relações entre homens chegando a oficializar e santificar suas uniões mediante um ritual semelhante ao do matrimonio heterossexual em “cerimonias de irmanamento”, nas que, segundo alguns estudosos, contavam com o visto bom ou a participação da Igreja até que no s. XI o catolicismo começou a condenar as relações entre homens. Carlos Callón considera que estas uniões eram de carácter civil em base a uma relação homossexual, amorosa e com efeitos jurídicos semelhantes a um casamento heterossexual. As relações gays aparecem abondosamente na poesia trovadoresca e antes nas sociedades grega, romana, etc.

Na Galiza é paradigmática a primeira boda gay documentada na Península Ibérica. Um 16 de abril de 1061 Pedro Diaz e Muno Vandilaz, vizinhos de Santa Mª de Ordes, Rairiz de Veiga, Ourense, uniram-se oficialmente em presença de testemunhas do casamento (há interpretações de se foi na igreja), comprometendo-se a cuidar-se mutuamente, compartir seus bens e trabalhar por igual “e se Pedro falecesse antes que Muno deixaria a Muno a propriedade e os documentos. E se Muno morre-se antes que Pedro, deixar-lhe-ia a casa e os escritos”. Não há conhecimento de bodas entre mulheres, apartadas da sociedade pola misoginia, inda que as cantigas galego-portuguesas oferecem informação sobre parelhas de mulheres.

Outras notícias na Galiza por matrimónios gays anteriores a julho do 2005 foi na Coruña o 8 de junho de 1801, na igreja de São Jorge casam pola Igreja Marcela Gracia Ibeas e Elisa Sánchez Lóriga, oficializando deste jeito uma relação lésbica que mantinham desde que se conheceram na Escola Normal do Magistério. Se bem Elisa adotou a fasquia e nome de home, Mario, enganando o sacerdote.

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