mércores 14/04/21

Defrontar o monstro

A crise mundial causada pola covid-19 ensina que a humanidade já não tem tempo para convencer ou ser convencida nem de que o sistema-mundo capitalista funciona, nem de que pode ser rapidamente adaptado para que funcione. As desigualdades estruturais inerentes e necessárias ao capitalismo (sem elas não há injusta acumulação) continuarão a manifestar-se em desigualdades no grau de devastação do vírus: morte, miséria, aumento da pobreza e da riqueza (maior concentração de capital), em resumo, destruição  generalizada não necessariamente “criativa” (esse mantra). Dirá-se que ao Capital pouco lhe importam estes efeitos, porque sempre se salva. Mas com um inimigo da forma da pandemia atual (e nem imaginemos outro patógeno ainda mais daninho, que chegará) as consequências podem ser imprevisíveis, e podem afetar ao próprio tecido do capital. Massas de pessoas podem deixar de ser recrutadas para a produção maciça, que já se está a ver ressentida, e os circuitos de distribuição dos bens podem danar-se; e sem produção (roubo do trabalho) nem distribuição e consumo (realização do valor) não há acumulação. O dinheiro, em montanhas de capital fictício, pode apodrecer nos bancos e nos investimentos fantasma, pois sem atividade económica não há onde queimá-lo. Pontualmente, grandes fortunas podem continuar, claro; mesmo crescer. Mas sem a sua circulação em concorrência com outras a maquinaria inteira da acumulação pode enferrujar-se e parar.

Tampouco é previsível quais podem ser as reações das massas populacionais. A vaga de amplas mobilizações oposicionais observadas antes da pandemia (Chile, Líbano, Equador, França) ficou congelada polas medidas restritivas dos governos e pola própria dinâmica de forças cuja prioridade atual é subsistir sem morrer. Mas à mínima que é possível surgem movimentos de protesto contra as políticas “liberticidas” dos governos, por exemplo, às quais (aventuro) se unem também (como nos Países Baixos recentemente) setores jovens não necessariamente afins ideologicamente ao libertarismo reacionário conspiranoico. Há, sem dúvida, uma base reacionária que aproveita a crise para debilitar políticas sócio-liberais, no melhor dos casos. Mas não é o único fator. Algo não funciona globalmente na gestão da pandemia, parece querer dizer-se. A gente sabe-o, mas não sabe com precisão o que falha. Culpabilizam-se da gravidade da situação sócio-sanitária hoje — hoje polas medidas excessivamente restritivas, amanhã pola sua laxitude — governos de diferentes cores partidárias, sem dúvida parcialmente responsáveis, mas não causantes dela (o vírus não foi criado; não foi espalhado deliberadamente; não é um instrumento económico da China contra os EUA; e não há um plano geral de geronticídio nem de “transferência geracional de capital”). E, num mundo informacionalmente saturado onde não é difícil tecer qualquer relato conspiranoico com uns poucos elementos habilmente selecionados, até mentes progressistas acolhem pitorescas teorias sobre a origem do vírus ou a sua curação.

É evidente que, como sistema de acumulação programada, o capitalismo é inválido para tratar uma crise global caracterizada, repito, pola sua imprevisibilidade. O “capitalismo de choque” ou o “capitalismo de desastre” são ações controladas: além de que costumam acontecer localmente, aí sim que funciona a destruição criativa. As guerras são o exemplo paradigmático de destruição criativa. Mas nem a ciência nem o capital podem controlar ainda esta forma de biologia que mata. E o capitalismo está a perder a possibilidade de adaptar-se e reforçar-se. Por exemplo, poderia (como aconteceu nas guerras) concentrar esforços de produção de bens de utilidade imediata (máscaras e outro equipamento de proteção, equipamento médico, medicinas, produtos de higiene) e, evidentemente, reforçar laboralmente de maneira categórica o próprio sistema sanitário. Há um imenso nicho de possibilidade de realização desses trilhões de valor acumulado que reside catatonicamente nos paraísos, museus e cemitérios financeiros. Enormes fortunas poderiam ser enormemente investidas no setor sanitário. Amplos remanentes de mão de obra paralisada poderiam ser recrutados e reconvertidos para esse setor, mesmo dentro da lógica de concorrência conflituosa entre o setor privado e o público, paliando assim dalguma maneira a obsolescência do Trabalho parado, que lastra o próprio sistema capitalista. Os estados do capital, sem dúvida, poderiam voltar a blindar juridicamente e materialmente aspectos da proteção do corpo (afinal, da sua força de Trabalho, a que os sustém!), como fizeram com os sistemas públicos de saúde depois da II Guerra exceto nos EUA (e assim está agora ali a pandemia). Mas não parece que o capital esteja a aproveitar a oportunidade maciçamente, exceto no jogo entre comercial, técnico e simbólico da Carreira das Vacinas, paralelo ao da Carreira Espacial doutras décadas.

E se afinal o capital não aproveita a oportunidade de cumprir o seu papel de gerador de produção, trabalho e serviços será porque, provavelmente, já não pode. A inútil acumulação de Valor financeiro catatónico é tal, e a lógica de crescimento composto chegou a tais dimensões, que só uma ínfima parte do valor parado poderia ser aplicado ao novo nicho produtivo, em benefício de “todos”. E, além de tudo, o capitalismo, em essência supremacista, singelamente, não vai disso. Prefere jogar à trampeada roleta do Salve-se Quem Puder, com tal de evitar que se salvem de igual jeito “leaders” e “losers”, as pessoas empreendedoras e as lacaçãs, as normais e as negras, as nacionais e as imigrantes. Para que continue a desigualdade que o constitui, o Capitalismo prefere que pessoas das próprias filas morram, porque é um jogo de todos contra todos.

Não há outra saída racional que a socialização da crise, da pandemia, e portanto da sua possível contenção com o esforço coletivo. Só imaginando um outro modelo social, socialista, se pode começar a confrontar o monstro. A crise e as diversas formas de confinamento ensinaram-nos também que, afinal, os “serviços essenciais” são aqueles que sustêm o corpo e a mente, isto é, o ser, o ser humano e social: a produção de alimentos e a sua circulação, a vivenda, a energia, os medicamentos, os cuidados, a socialização primária; também a criação desinteressada, o prazer do imediato, o desfrute do local. Isso tudo é o verdadeiro coração duma sociedade reencontrada com a natureza e com a sua transformação lenta e racional polo trabalho humano; o demais, os outros campos de produção de valor capitalista exponencialmente acumulável, é supérfluo, contingente, e, no momento atual, nocivo.

É imprevisível saber se desta começará a rebentar o altivo monstro capitalista, infetado com virulência polas suas próprias contradições. Provavelmente não, claro, e precisará doutra crise ou de mais antes de assumir a iminência do falho sistémico generalizado. Mas decerto que aquela ilusão do Mercado que com tanto esforço propagandístico proclama dia a dia e década após década já rebentou na cabeça de milhões de pessoas, pola incontestável evidência dum sofrer injusto, imposto e inerentemente desigual. Se as gerações mais jovens não o compreendem e não reagem politicamente aprendendo a pensar e a tecer a utopia do comum humano, mas preferem simplesmente aprender a ser curtidas nesta crise para poder sobrelevar melhor a próxima, o seu futuro, com pandemias ou sem elas, será pavorosamente pior do que o nosso.

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