domingo 11/04/21

Todos irmãos e irmãs

O papa Francisco passará à história dos textos papais pela sua encíclica Laudato si, uma encíclica revolucionária que foi, sem dúvida, o texto com mais repercussão mundial que saiu nunca do Vaticano. Um texto de ecologia valente e inovador, que suscitou muitos defensores e bastantes detratores nos templos do capitalismo liberal.

Vem de publicar a semana passada a sua terceira encíclica (o texto mais importante dum papa): Fratelli tutti, uma encíclica social. Antes de ser publicada, o título fora criticado pela sua falta de inclusivismo (segundo alguns/mas deveria ter sido Fratelli e sorelle tutti). Porém, o texto –respeitando o título inicial, que é uma expressão de Francisco de Assis, como o caso da anterior–, diz no começo que vai dirigido “a todos os irmãos e irmãs”, querendo expressar “uma fraternidade aberta” que acolha “a cada pessoa além da proximidade física e o lugar do universo onde nasceu” (§1). Como expressão desta vontade fraternal, cita pouco depois o Grande Imãm de Egito Ahmad Al-Tayyeb, que conhecera num encontro em Abu Dabi.

Como na anterior, também se fala várias vezes neste texto de que todos estamos em relação, “hiperconectados” como se manifestou com a pandemia da Covid-19 (§7); “ninguém se salva só” (32). Porém, vivemos num “mundo fechado” no qual os sonhos rompem cada dia em pedaços e a globalização “favorece normalmente a identidade dos mais fortes” (12 e 29-30), acentuando-se o individualismo e onde os pobres são “cruelmente descartados” (19).

A encíclica molestou nos sectores conservadores pela sua crítica da propriedade privada como inviolável, quando os bens devem estar ao serviço de todos/as; da “agressividade sem pudor” dos poderosos (118-120); da indiferença ante o caído, o débil e o emigrante; da intolerância religiosa, etc.

A encíclica propôs sociedades com “coração aberto” (129-153), em fecundo intercâmbio acolhedor, frente ao populismo liberal egoísta (155-169), e o exercício do “amor político” de que falava Camilo Torres.

Nela, as religiões têm que estar ao serviço da fraternidade, profundamente comprometidas com a construção duma fraternidade universal (272-284).

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