luns 19/04/21

Cunqueiro e Prisciliano

O passado 28 de fevereiro foi o 40 aniversario do passamento de Álvaro Cunqueiro (1911-1981). Este acontecimento do mestre da narrativa fantástica e o compromisso com a língua galega foi pouco destacado. Ainda que alguns criticassem a sua literatura como pouco comprometida, por ir numa linha fantástica –o realismo mágico galego na época do realismo social–, o seu compromisso com a língua e a cultura galegas queda claro numas formosas palavras inscritas por desejo próprio na tumba do cemitério de Mondonhedo: “Eiquí xaz alguén que coa súa obra fixo que Galicia durase mil primaveras máis”.

Mas não vou falar da sua obra, ainda que penso seja das mais formosas da nossa língua, vou fazê-lo de um aspecto menos conhecido: Prisciliano, por quem manifesta uma grande simpatia.

Numa anedota recolhida no livro de F. Armesto Cunqueiro: Unha Biografia, fala-se de um artigo de Cunqueiro em La Voz de Galicia intitulado “Antipriscilianistas”. Fala nele duma conferência sobre Prisciliano e a polémica antipriscilianista do seu amigo José Mª Castroviejo em Mondonhedo pelos anos 50 do passado século. A conferência, apresentada por Cunqueiro, foi no Seminário de Santa Catarina, mui querido por ambos e onde se formaram alguns dos nossos melhores poetas: Pastor Díaz, Leiras Pulpeiro, Noriega, Crecente, Iglesia Alvariño ou Díaz Castro. Conta Cunqueiro que na sua dissertação José Maria “reverteu mil simpatias pelo suposto heresiarca, e viu-se como Castroviejo se passava ao bando dos que tenhem Prisciliano por católico, apostólico e romano”.

Quando começou a falar da sua persecução apagou-se a luz. Quando volveu de novo, “Itácio [bispo opoente de Prisciliano] retirava-se derrotado –escreve Cunqueiro–. Porque não há dúvida alguma que o interruptor foi Itácio; que Castroviejo convocara os antipriscilianistas, plenos ainda de furor teológico”. E conclui: “Asseguro-lhes a vocês que houve um momento em que senti a presença física dos antipriscilianistas entre a minha cadeira e a do orador... E se traziam com eles o verdugo imperial de Tréveris coa sua machada afiada?”.

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