Putin e a paz na Ucrânia
Oprocesso de paz na Ucrânia, até agora falhado, diz muito mais do que parece sobre o estado da guerra e, sobretudo, sobre a difícil situação estratégica da Rússia. Putin manifestou a sua disponibilidade para participar num diálogo com Zelenski em Istambul, ao qual, se acontecesse, Trump se juntaria para fechar o acordo. Como é sabido, decidiu à última hora não comparecer e enviar uma delegação de baixo nível, oferecendo condições impossíveis de serem aceites pela outra parte. Esta posição foi interpretada por muitos como significando que os governantes russos não querem a paz; eu diria que, mesmo que quisessem, não a poderiam aceitar.
Embora a guerra na Ucrânia foi esquecida durante algum tempo, devido ao relativo impasse na frente ucraniana nos últimos meses, nas últimas semanas houve movimentos na arena política que sugerem que o cenário mudou significativamente. Em primeiro lugar, o acordo entre Zelenski e Trump, no qual o primeiro cede aos americanos direitos de exploração de recursos naturais críticos, em compensação pela ajuda prestada no passado e, presumivelmente, também no futuro. Trata-se obviamente de uma cessão de soberania que transforma a Ucrânia numa espécie de protetorado, mas implica que os americanos protegerão o seu território, nem que seja para seu próprio bem. É uma ligação ainda mais forte do que se fizessem parte da NATO. Isto significa que os americanos terão uma presença permanente no país, não só agora, mas no futuro pós-Trump, quer ele seja democrata ou republicano. Se o que queriam evitar era a presença de forças ocidentais nas proximidades da Rússia, receio que não só não o consigam, como terão ainda mais, muito provavelmente tropas de alguma empresa privada, como a Wagner. Penso que a forma como Trump negoceia, delegando o Sr. Witkoff, um homem de negócios, para o fazer e relegando o seu Secretário de Estado, Marco Rubio, para um segundo nível, desconcertou Putin. Este está habituado a negociar em termos de política de poder e não de negócios, o que permite uma maior margem de manobra, e as formas confusas de Trump ao fazê-lo, podem tê-lo levado a cometer um erro.
Por outro lado, após três anos de guerra e com uma economia totalmente militarizada, Putin tem pouco a oferecer ao seu povo para além de ganhos territoriais relativamente pequenos, equivalentes ao território da Estremadura, a mais do que já tinha conseguido em 2014. Nem sequer conseguiu conquistar a totalidade do Donbass, não controlando totalmente, com exceção de Luhansk, nenhum dos territórios disputados nessa região. Se a paz fosse assinada agora, seria para consolidar esses ganhos, mas pouco mais, e nenhum dos objetivos declarados no início da guerra seria alcançado. Seria difícil de vender à sua população e, sobretudo, ao aparelho de poder russo, que não é tão homogéneo como parece. Os ganhos territoriais, mesmo que se verificassem, pouco contribuiriam para melhorar a qualidade de vida da população ou os rendimentos dos oligarcas. As elites soviéticas já tinham estes e muitos outros territórios à sua disposição e mesmo assim não conseguiram evitar o seu colapso em 1991 e não se espera que desta vez seja melhor. É muito provável que uma "vitória" assim faça emergir a frustração na sociedade russa e que a liderança da elite putinista comece a ser questionada. Putin, se perder o poder, não terá propriamente à sua espera um lugar no Parlamento Europeu ou no Conselho de Estado, como acontece nas democracias ocidentais mais tranquilas. Ele sabe bem o que o espera.