Eurobonos para a Ucrânia
Parece que a União Europea apostou em continuar a financiar a guerra na Ucrânia e parece ter optado pela solução mais confortável, embora não precisamente a mais heróica, que é a de emitir dívida pública comum por todos os europeus, com exceção da Hungria, República Checa e Eslováquia, para fazer um empréstimo ao governo de Zelenski, a fim de que este possa adquirir os insumos necessários para continuar no combate. Foi descartada, a meu ver com bom senso, a utilização dos fundos russos congelados em empresas de compensação europeas, sediadas principalmente na Bélgica. Digo com bom senso, porque não só os belgas teriam de se submeter a represálias jurídicas, ou de outro tipo, por parte dos russos, como também estas empresas teriam grande dificuldade em continuar a operar, uma vez que nenhum outro governo ou banco fora da Europa voltaria a depositar o seu dinheiro num local onde este pudesse ser confiscado. O ganho seria muito provavelmente para os chineses, que também contam com instituições de compensação de pagamentos, em princípio, à prova de apreensões.
Não sou a favor de que a União Europea se envolva nessas questões, e menos ainda com acordos opacos alcançados à última hora. A decisão de apoiar ou não a guerra na Ucrânia deve caber a cada Estado, com cargo aos seus orçamentos e explicada e discutida nos seus parlamentos, pois legitimamente cada país tem o direito de ter a sua própria posição a esse respeito. Os eurobônus também não são a melhor das práticas, pois não só comprometem os países no conflito, mas também implicam uma hipoteca cara para o futuro dos seus membros. Estes serão obrigados a continuar a pagar durante muitos anos a dívida de um conflito e ficarão ainda mais controlados pela política económica da Comissão Europea. Não deixa de ser necessário advertir mais uma vez contra a centralização da dívida, que é o instrumento que tem sido historicamente utilizado pelos governos centrais para manter subjugados os seus Estados ou comunidades autónomas. E o mecanismo dos eurobônus está sendo muito celebrado pelos europeístas, pois está deixando de ser algo excepcional para se tornar uma prática cada vez mais comum.
Além disso, existe outro problema, que é de quem serão adquiridas as armas necessárias para manter a guerra e, acima de tudo, que tipo de armas ou equipamentos serão comprados para esse fim. A indústria europea de armamento ainda não tem capacidade total para fornecer os insumos necessários para sustentar o esforço ucraniano, pelo que muito provavelmente será necessário emitir os títulos para adquirir parte do equipamento nos Estados Unidos. Isto significa sustentar a indústria bélica americana com fundos europeus, além, claro, do complexo militar europeu, que também receberá boa parte desses fundos, o que equivale, para todos os efeitos, a uma sub-venção direta ao setor. Por outro lado, seria necessário debater se as armas entregues podem ou não levar a uma escalada bélica que agrave ainda mais o conflito. Mas isso implicaria um debate ainda mais profundo sobre quais são os objetivos que se pretendem alcançar ao buscar prolongar a guerra. É claro que também seria necessário debater as contrapartidas que serão obtidas em troca do empréstimo, das quais nada se fala, mas que muito provavelmente estão presentes no acordo.
Esperemos que, de qualquer forma, isso sirva para alguma cousa e que este seja o último Natal em guerra naquela região.