De estirpes e dignidades

A minha estirpe não é labrega. Se apulito pola árvore familiar que me precedeu não dou com avós a lavrar a paisagem nem com avôs a semear castanheiros para o futuro. A minha ascendência esfregou a terra das mãos e esqueceu as frieiras nos pés afeitos a caminhar lama.

Na banda de mamã, os Arines partiram de aqui para o mundo levados polo comboio. O meu bisavô Fermim nasceu em Tui, que seique o trisavô Ramón andava por Valença levando as obras do ferrocarril. Sempre imagino ao velhote ao pé do rio Minho, esse que calou vestido de púrpura, assinalando onde os piares da ponte de ferro, onde o pouso em terra. Os filhos todos acabaram de ferroviários, o que levou ao bisavô a Vila Garcia e à minha mãe a crescer entre as árvores da Alameda, bem longe de veigas e milho. Não sei onde estaria a família quando os feitos de Sobredo, porém, podo imaginar ao bisavô Fermim a ler o jornal escandalizado e debatendo com as amizades do casino, do grupo de teatro das irmãs, do clube ciclista em que andava, a necessidade de significar-se para fazer deste um mundo em que as labregas não tivessem que pagar por lavrarem a paisagem, por semear castanheiros para o futuro. Imagino-o. Nada sei. Só que no 34 andava em mítins do Sindicato de Ferroviários a lavrar esse futuro. Mãos tisnadas do carvão das locomotoras, limpas de torrões e lama.

Certo é que a ramagem da minha árvore por vezes tocou o chão. O conto que nos botava a avó Glória era aquele da casa grande de Portaris, a dos bisavôs, casa grande por vezes chamada de granja e por vezes de paço. Ela meninha feliz, sem mais preocupação que espiar as conversas na cozinha enorme, onde jantavam a diário até vinte jornaleiras. Un caseiro por dia do ano para trabalhar terras assim tão estensas. A pobreza inesperada fez que a minha avó aprendesse o uso do legão e trabalhasse a horta e criasse corrichos e galinhas, mas foi percebida essa necessidade como a expulsão do paraíso. Condeia no inferno. O meu bisavô Manuel García, o amo de Portaris, era integrante do Partido Monárquico e foi concelheiro nas primeiras décadas do século XX. Imagino-o beligerante na outra banda deste sítio, atrás da Guarda Civil, assinalando com o índice os homens mais arrichados, as mulheres afoutas de mais, aqueles que rompiam a pax augusta da sua casa grande. Ao bisavô devo imaginá-lo. Aos filhos não. Todos beligerantes no 36, dinamita na mão e a rebentar a solidariedade labrega nas terras de Riba-d’Úmia e Meis, lá onde governavam. Falangistas de pistola ao cinto, interviram nas sociedades campesinhas da contorna ameaçando, castigando, torturando e mesmo assassinando àqueles que se significaram nos anos anteriores. E àquelas também: Manuela Abal, uma das suas vítimas, tinha ofício conhecido. Era jornaleira.

A minha estirpe não é labrega. Porém, a vida levou-nos à aldeia. Papá era mestre e obteve destino primeiro e final no Fojo, um lugar da Estrada. E já se sabe: as filhas do maestro não vamos à erva. As filhas do maestro não vamos com as vacas. As filhas do maestro não almoçamos sopas de vinho nem vamos à compostora nem vemos cravar o cuitelo no coração do porco nem andamos com o trator polas veigas quando ainda não chegamos aos pedais da bicicleta. Os primeiros anos da minha infância foram os do “vós não sodes assim, vós sodes de Vila Garcia”. O rural como um mundo largo e alheio. A condeia ao inferno. O sítio a dinamitar. O atrasso representado na sinha Virtudes, trajada em preto, pano na cabeça com a foucinha direta às veigas. Apoucada, ignorante, submissa.

A verdade tem um caminho: não todo é estirpe. E menos mal. O primeiro choque para mim foi ler a biografia que sobre Manuel García Barros escreveu Xoan Carlos Garrido. García Barros deu nome ao licéu em que eu estudei e fora inteletual respeitado na comarca. Nascera labrego e fizera-se mestre e jornalista e escritor, sem nunca deixar de ser labrego. A sua longa vida fez com que vivesse o movimento agrarista, o golpe do 36, a longa ditadura, e quase a morte do ditador. E lendo a sua história soubem da força do movimento agrarista na Estrada: no ano 1912 juntaram-se no campo da Feira entre dez e vinte milheiros de pessoas para escuitar a Basílio Álvarez. Em maio de 1915 decidiram “cercar” a vila, em protesto por uma suba de impostos, impedindo a chegada dos produtos agrários: “Establécense piquetes en todas as entradas para comprobar o cumprimento do acordado, e durante un mes a paralización foi absoluta: nin feira puido celebrarse; faltaron os legumes, faltou o leite, faltou todo, menos o tesón das sociedades, que nin sequera lograron amoumalo os alardes de forza armada...”1. O 16 de maio o xuíz entrou com as forças da ordem no campo da festa de Lagartóns, paróquia chegada à vila, para deter aos dirigentes do movimento. Quem sabe se já andavam por ali Joaquín Estévez Besada ou Venancio González, solidários com os de terradentro: “Con gosto consignamos nestas columnas a discreción e o comedimento observado polo tenente da Garda Civil, D. Manuel Vázquez, que a pesar de montar un cabalo nervioso non causou dano algún, se ben é certo que a multitude estaba en actitude pacífica, e só facía correr e deterse en varios grupos e sitios porque descoñece o que é unha carga e o que teñen que facer nestes casos”2. Suspendeu-se a festa e um exército de romeiros mudou a baila pola marcha cívica, dirigindo-se em manifestação à vila, até conseguir a libertação dos líderes e a negociação com os poderes públicos. Messes depois o concelho estava nas suas mãos. A adolescente que eu era quando lia estas páginas não podia mais que maravilhar-se do contraste entre esse agro aprendido na família e o que agromava entre as linhas da crónica. Uma sociedade afouta, que pelejava os seus direitos, com pano preto na cabeça ou sem ele. Recordo achegar-me a Lagartóns para visitar o nosso sítio, pois nós também temos um monumento, aquele que lembra a vitória agrarista de 1915, inaugurado já no ano seguinte. Há uma ligação secreta entre labregas e pedreiros: as mãos caligrafadas polo trabalho.

O segundo choque foi Virtudes, vizinha trajada em preto, pano na cabeça, com a foucinha direta às veigas. Apoucada, ignorante, submissa. Em umas elecções, indo eu votar à escola, apanhou-me do braço, levou-me a um cantinho e disse-me para eu escolher-lhe a papeleta. Não sei ler, explicou. E lá fui, fastiada por ter que ver como elegia votar aos de sempre e sem vontade de enganá-la oferecendo um outro papel qualquer. Dá-me a de Anguita, disse. A moça que eu era naquele momento sorriu feliz ao descobrir uma comunista na velhota apoucada, ignorante e submissa que imaginara. Que aprendera. A moça que eu era daquela reflexionou também. Que vida levou uma labrega comunista iletrada na longa noite de pedra? Como arrastar os dias em um espaço consumido polo silêncio e a desmemória? Votaria Cándida Rodríguez os comunistas, de viver a morte do ditador?

A senhora que sou hoje mantém o carácter não labrego da sua estirpe, mas reivindica-se como mulher rural: no rural vivo, no rural trabalho, rurais são as minhas vizinhas e as minhas amizades. Acumulo aprendizagens destes anos todos e sei, hoje, que temos uma história de luitas contra a injustiça que sementaram, nesta paisagem, rebeldias. A derrota do épico, chama-lhe Ana Cabana. Não se trata de grandes revoltas, mas de luitas quase domésticas e reiteradas no tempo, multiplicadas por centos de espaços, de lugares, de sítios. Luitas quase invisíveis de tão domésticas.

Mas há uma diferença entre o mundo e Sobredo. Entre Sobredo e o mundo.

Sobredo nunca esqueceu.

Há uma ligação secreta entre labregas e monumentos: a dignidade restaurada.

Uma vez que a Guarda Civil carregou contra a multidão que aqui se congregava, em procissão cívica contra o desafiuzamento, a dignidade botou a andar. Uma vez que o tiro de espingarda atravessou o seu corpo, Cándida Rodríguez apoiou a mão cheia de frieiras na terra húmida e, con esforço, incorporou-se. Uma companheira, quiçás de nome Virtudes, deu-lhe a mão e tirou dela suavemente até ficar em pé. Acompanhou-a até a casa mais próxima. Lá, racharam lençois, enxovais de casamento, e enxugaram o sangue da ferida. A velha da casa, quen sabe se Manuela Abal, ousou apanhar umas tenaces e extrair o chumbo da carne. Cándida exorcizava a dor apertando a barriga. Coseram com agulha chegada de urgência do albório do xastre. Em cada casa ficou uns dias Cándida, atendida e cuidada pola colmeia. Mesmo passou polas de Venancio e Joaquín, aliviados das suas feirdas. Crescia o ventre da abelha e eram as operárias todas a cozinhar caldos de galinha, a lavar panos e aliviar suores febris. Cádida resistia. Uma tarde percebeu a punhada da criança na matriz. Forte. Disposta. Medrava a semente. E chegou o embaraço a término, acompanhado dos sinos todos da comarca. Toque a rebato porque Cándida pariu cem filhas. Não foi cadáver mas semente. Hoje, um exército de netos, e bisnetas da Cándida chegamos ao sítio em procissão cívica e reivindicamo-la como estirpe, como raíz que nos precede e anima a lavrar a paisagem, semear castinheiros, tingir de terra as mãos e calcar forte com pés, afeitos a caminhar lama.

Assim imagino eu a Cándida Rodríguez e Manuela Abal e a sinha Virtudes, todas três da mão a caminhar connosco nesta manhã de temporal, dinamitando o esquecimento.

Sobredo, 24 de novembro de 2024


  1. Xoan Carlos Garrido Couceiro: Manuel García Barros. Loitando sempre. Fouce Edicións 1995, pág 76. https://www.tabeirosmontes.com/uploads/1/9/6/2/19629509/loitando_sempre.pdf
  2. Xoan Carlos Garrido Couceiro: Manuel García Barros. Loitando sempre. Fouce Edicións 1995, pág 88. https://www.tabeirosmontes.com/uploads/1/9/6/2/19629509/loitando_sempre.pdf

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