sábado 29/01/22

Todo termina mal

Há um poema do mestre Carvalho Calero que leva esse título.


Há um poema do mestre Carvalho Calero que leva esse título. Os versos som de um fatalismo sobrecolhedor. Ninguém pode abstraer-se da realidade da morte. Tudo, a vida dos animais e as pessoas, a existência dos objetos, tem um final. “Cansam os deuses de felizes ser”, chega a dizer o poema. Talvez sejam estas as horas nas que estejamos a assistir ao final da língua galego-portuguesa na Galiza? Talvez sejam estas as horas nas que estejamos a assistir à nossa própria extinçom como povo? 

O ato de homenagem a Carvalho Calero deste ano em Ferrol foi um ato triste. Vários comentários escuitados de conversas diferentes coincidiam em fazer umha trágica analogia entre o estado da casa natal do polígrafo ferrolano e a situaçom da língua no país. Com efeito, o prédio onde foi dado a luz o brilhante político, lingüista, literato e pedagogo, sofreu nos últimos anos um deterioramento muito rápido. E as últimas três décadas, para a língua galega, forom de queda livre em termos absolutos. Podem-se fazer mais analogias. Ferrol. A cidade que viu nascer ao Carvalho. O quê é que fica do bairro da sua infáncia? Nom por acaso eu optei por lêr naquele ato o poema número 5 da segunda parte do poemário “Reticências” (“Ponte no ar”, é que leva por título essa seçom do poemário) na que Dom Ricardo fala de entrar em Ferrol para regressar à sua rua Sam Francisco, e encontrar-se lá com a criança que foi. Já daquelas perguntava, o quê é que ficaria daquele mundo.

Vários comentários escuitados de conversas diferentes coincidiam em fazer umha trágica analogia entre o estado da casa natal do polígrafo ferrolano e a situaçom da língua no país

A casa de Carvalho Calero desaparece, em fatal harmonia com a sua contorna. Ferrol desfai-se do seu passado, para renunciar ao futuro. Para quê recordar a Carvalho Calero, para quê recordar os assentamentos que historicamente forom conformando Ferrol? Para quê recordar o que Ferrol foi? Enfim...todo termina mal! Ferrol, em vida de Carvalho Calero (viveu entre os anos 1910 e 1990) ainda era umha cidade galega, praça militar importante para o exército espanhol por um lado e, polo outro, um ponto de concentraçom importantíssimo de proletariado industrial devido à atividade dos estaleiros. Estaleiros hoje praticamente enmudecidos. 

Dizia Carvalho Calero naquele poema, que atravessaria a ponte das Pias, se os operários de Astano nom a tinham cortada. E que, se a ponte estiver cortada, colheria o caminho velho, em direçom a Neda (já daquelas se fazia notar o declínio do setor naval ferrolano). Se hoje o Carvalho se dispuxesse a atravessar no carro a ponte das Pias, nom acharia nengum corte de tráfico protagonizado por trabalhadores de Astano. Dizia também que desceria, umha vez na cidade, pola rua de Sam Francisco e se encontraria com o menino que foi a brincar ao pé da casa.

 “Cansam os deuses de felizes ser”, chega a dizer o poema. Talvez sejam estas as horas nas que estejamos a assistir ao final da língua galego-portuguesa na Galiza?

Nom sei quantas vezes poderá o Carvalho realizar esse percurso, desde Compostela a Ferrol, passando polas Pias, metendo-se no centro da cidade e descendo pola rua do seu lar de infáncia, encontrando sequer algum resto do que fora a sua casa...talvez enquanto algumha parede incompleta continue em pé, o espectro do Ricardo criança ainda se poida ver, difusamente, a brincar e correr polas proximidades. Talvez o Carvalho o contemple saudoso desde o carro que passa fugazmete para se diluir naquelas horas que já nom som deste mundo, que apenas regressam da mao da imperfeita e caprichosa lembrança.

O único que, parcialmente, me reconforta é pensar que cada ano, por finais de Março, o Carvalho, se decide passear por Ferrol, poderá ver que pessoas de geraçons posteriores recolherom o seu legado e o reivindicam. Isso sim, numha cidade destroída, desolada e num país com umha situaçom desesperada.

E eu pergunto de novo...todo termina mal? Todo terminará mal, se deixamos que desde fora nos ditem o destino. Se permitimos que nos continuem a dizer que nom podemos produzir, porque nom somos competitivos (o mesmo argumento para produzir barcos do que para produzir leite, quê curioso) ou que a nossa língua ( a nossa maior obra como coletivo humano e a que nos fai [email protected]) nom serve para o mundo moderno. Darwinismo neoliberal, que nos apaga do mapa, que nos condena. Que nos nega a memória para nos cortar o futuro.

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