Opinión

Vicente Risco, descobridor de Tagore na Península

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Vicente Risco, descobridor de Tagore na Península

Em outubro de 1963 cheguei a Ourense desde a minha aldeia de Corna a estudar Magistério. Risco falecera em abril. Por isto, infelizmente, não pudem conhece-lo. E quánto me gostaria te-lo conhecido! Conde Corbal, quando os do grupo Adepende organizamos a exposição para salvar o Teatro Principal, ilustrou-nos sobre a sua figura. Logo a biografia escrita por Casares, baseada no arquivo da Escola Normal, onde Risco fora professor e director.

O 7 de maio de 1861 nascia em Calcutá, no paço Thakurbari, o meu admirado Robindronath. E posto que no presente ano se celebra o centenário da revista Nós, da que o dinamizador principal fora Risco, autor entre outros livros de Teoria do nacionalismo galego, com muitas atividades por Galiza, quero falar da importante relação entre Risco e Tagore. Possivelmente o único galego que pudo olhar o bengalí em vivo e em directo, junto com Carmem Brei a cuidadora da casa de Victoria Ocampo em S. Isidro-B. Aires, onde Tagore morou em 1924, em novembro e dezembro e primeiros dias de janeiro. Risco, que sabia inglês e sánscrito, leu de forma casual, em 1912, o livro de Evelyn Underhill O Caminho Místico, onde se fala de Tagore. Comentando este livro, Risco dixo: “Pois um desses seres extraordinários é Robindronath Tagore. No livro inglés The Mystic Way de Miss Underhill, sinala-se Tagore como um grande poeta cuja arte exquisita e sereia visão do eterno, através do temporal, fai-no aparecer como um génio extraordinário, uma estrela de primeira ordem no céu da arte”. Depois lê a primeira edição da Oferenda lírica, A lua nova, O jardineiro e Sadhona. Estes 4 livros tagoreanos entusiasmaram-lhe. Tanto que falava com os seus amigos de forma continuada e entusiasta sobre Tagore, da sua maravilhosa obra e do seu excelente pensamento. Algúns amigos chegaram a dar-lhe a Risco o alcume de 'Tagore'. Não foram poucos os que pensaram, ao escuitá-lo, que ele era o mesmo Tagore. Em 1913 Robindronath recebe o Nóbel de Literatura e o Ateneo de Madrid convida Risco para que imparta sobre ele uma conferência, da que tenho cópia de mais de 15 páginas, com uns 12 poemas tagoreanos traduzidos desde o inglês por Risco. Com grande sucesso, foi pronunciada no sábado dia 7 de março de 1914. Publicada nos números 17 e 18 de La Palabra em 1913. Muito interessante e completa, é o primeiro estudo sério realizado na Península sobre Tagore. Não tenho qualquer dúvida de que Risco foi o descobridor de Tagore na P. Ibérica, o primeiro que no país falou sobre ele. 

Risco passou por muitas etapas na sua frutífera vida, e escreveu continuadamente sobre Tagore, ao que muito admirava. Inclusive quando a partir de 1930, ao conhecé-lo em pessoa, esvaeu-se aquela admiração que por ele sempre teve. Na sua época orientalista, representada pela sua revista La Centuria, publicada em Ourense em 1917 e 1918, no nº 5 da mesma fala muito bem da escola de Tagore em Santiniketon, onde desde 2001 eu passo largas temporadas, e desde 2010 seis meses cada ano. Também comenta como os seus poemas, ao passá-los ao inglês, perdem a musicalidade presente nos originais bengalís. Nese número, traduzidos por Risco, publicam-se 3 poemas tagoreanos. Em A Nosa Terra e na Nós, publica, em galego, vários poemas e contos do vate bengalí. Até pouco antes de desaparecer, Risco publica em La Región, nas datas mais sinaladas, como as da morte e o centenário, artigos sobre a sua figura. O 11 de janeiro de 1925 publica no diário Galicia, em norma reintegrada como a minha, sob o título de “Cultura e Natura”, um interessante artigo sobre Tagore. Na tese de doutoramento realizada pelo que foi meu aluno na Normal, José Fernández, da que foi publicado um grosso volume com o título de Vicente Risco Mestre de Mestres, tem um capítulo dedicado à relação com Tagore.

Em 1930, com uma bolsa da Junta de Ampliação de Estudos, Risco viaja a Alemanha. Em Berlím, na sala nobre do paço Kronprinz da Kaiser Friedrich Universität, Tagore pronúncia uma conferência. Risco, que está na cidade, vai escoitá-lo. Enquanto, desenha uma caricatura do mestre bengalí. Na Nós e em Mitteleuropa comenta este feito. Falando da pose do escritor indiano, demasiado hierática. Foi aí onde perdeu aquela ilusão que teve por Tagore. O tema do relacionamento de Risco com Robindronath merece, pelo seu interesse, um estudo mais profundo. Eu estou preparando uma monografia sobre o tema a publicar em 2021.

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