Uma defesa da monarquia a partir do nacionalismo
Há alguns dias, completaram-se cinquenta anos da restauração da monarquia em Espanha e, por ocasião da comemoração, reabriu-se o debate no nacionalismo sobre a pertinência da continuidade da instituição. Por isso, partidos como o BNG, o Bildu ou o ERC manifestaram a sua oposição à permanência dela. Deixando de lado o facto de se tratar de uma reivindicação autonomista, pois um independentista deveria aspirar a conseguir a soberania da sua nação, deixando as questões de organização política da sua nação aos espanhóis, a minha opinião é que esta reivindicação não favorece necessariamente os interesses das nações hispânicas sem Estado. A alternativa a uma monarquia do tipo hispânico é uma república, que pode ser eleita por sufrágio universal, como em Portugal ou França, ou uma figura simbólica sem poder executivo escolhida pelo parlamento ou por grandes eleitores, como na Alemanha ou Itália. Não sei qual é a fórmula defendida pelos críticos da monarquia atual, mas ambas têm contraindicações para as nações sem Estado. A prova está no facto de que, no espaço europeu, os movimentos nacionalistas são muito mais fortes nos regimes monárquicos, que contam, por certo, com democracias muito consolidadas, como os Países Baixos, a Dinamarca, a Suécia ou a Noruega, às quais eu gostaria que um futuro reino da Galiza se assemelhasse. Os países com um sentimento independentista mais forte no nosso espaço são os britânicos, ou seja, a Escócia e o País de Gales, Flandres e os hispânicos. Nos três casos, estamos a falar de monarquias, enquanto que nas repúblicas os nacionalismos, além de serem muito mais fracos, são mais controlados pelo governo central. Na maioria destes, nem sequer existe um reconhecimento administrativo ou político das suas nacionalidades e, quando existe, as suas competências são muito limitadas. Isto deve-se ao facto de as monarquias atuais herdarem a tradição histórica dos territórios que foram agregando através de casamentos ou conquistas, e isso reflete-se até nos seus títulos, como acontece, por exemplo, no Reino Unido, onde o rei é rei da Inglaterra e da Escócia depois de ter sido príncipe de Gales. Além disso, os reis descendem de famílias internacionais, como o atual rei espanhol, e é provável que o seu nacionalismo de Estado seja muito limitado. Nas repúblicas, por outro lado, a maioria delas exige que seja um nacional, habitualmente con sentimentos nacionalistas, o que possa ocupar o cargo.
Além disso, um presidente da república é, por definição, uma pessoa que vem da política partidária e é difícil que seja neutro no exercício do cargo. Se for eleito, muito provavelmente virá de um partido espanhol e é de se esperar que sua sensibilidade para com as nações do seu território seja menor, quando não hostil a elas. Ao contar com uma legitimidade proveniente da eleição popular, é muito provável que queira interferir nas políticas levadas a cabo pelos parlamentos, podendo mesmo dissolvê-los se estes o incomodarem. Poderíamos perguntar-nos quanto tempo teria durado o atual governo espanhol com um presidente da república do Partido Popular, algo perfeitamente concebível se olharmos para Portugal, sem ir mais longe. Um presidente simbólico não é melhor do que um rei, no sentido de que também viria de algum partido, não podendo esconder as suas preferências ideológicas e não sendo igualmente bem recebido num lugar e noutro. Ainda assim, também não é provável que venha de uma minoria nacional. Acho que antes de propor essas soluções, não devemos nos deixar levar pelo esquerdismo e pensar um pouco também no que pode ser melhor para a nação.