Junts e as estratégia do nacionalismo

Junts parece ter uma nova estratégia em relação ao governo espanhol, ao afirmar que bloqueará qualquer proposta normativa apresentada pelo atual executivo. Esse bloqueo não depende só da vontade de Junts, mas também da decisão do PP ou Vox, e esse é um fator que os independentistas catalães não podem controlar. Supor que as outras forças de direita, especialmente o PP, vão votar negativamente todas as normas de Sánchez é supor muito. Mas a estratégia em si não tem necessariamente de ser má. Os partidos nacionalistas, em regimes parlamentares como o nosso, costumam seguir várias estratégias, dependendo sobretudo dos objetivos políticos das suas organizações. Muitas forças independentistas, como o IRA ou, em tempos, Herri Batasuna, optam por se apresentar às eleições, obter os assentos correspondentes e depois não os ocupar, para não terem de reconhecer o Estado do qual querem separar-se. A Aliança Catalana parece não querer candidatar-se às eleições espanholas com o mesmo objetivo, mas o problema é que este tipo de estratégias desmobiliza as bases ao não se ativarem para as eleições e, sobretudo, o eleitorado, que acaba por procurar refúgio noutras forças. Também não se obtém a visibilidade do seu programa que dá a exposição pública das suas ideias e programas.

Outros partidos nacionalistas, em princípio aqueles que não buscam a independência a curto ou médio prazo ou são simplesmente autonomistas ou federalistas, procuram participar na política estatal. Assim, contribuem para formar maiorias nos parlamentos, chegando, em alguns casos, a fazer parte dos governos do Estado em que habitam, como fazem, por exemplo, os nacionalistas flamengos, que fizeram parte de numerosos governos de coligação. A sua estratégia consiste em ir formando estruturas estatais nos seus respetivos territórios, com a intenção de, no futuro, estarem preparados para adquirir maior soberania ou mesmo independência. São pragmáticos e procuram maiores competências ou maior disponibilidade de fundos públicos, para melhorar a vida dos seus cidadãos, tornando visível a sua utilidade para a cidadania. Também formam os seus quadros em tarefas governamentais e constituem um grupo de técnicos especialistas afins aos princípios nacionalistas, evitando que tenham de se juntar a outras forças políticas para desenvolver as suas carreiras profissionais.

É o caso típico do PNV ou da antiga Convergencia i Unió, que tanto trouxerom às suas nações. É também a estratégia que parece seguir a Esquerra Republicana ou o próprio Junts nestes anos de legislatura, agora aparentemente fracassada.

O problema para as forças catalãs é que é mais fácil passar de autonomista a independentista do que o contrário. Uma vez que grande parte da população está consciente da necessidade da independência, voltar ao pactismo autonómico pode decepcionar a grandes segmentos da sociedade e gerar desligamento em relação a estas forças ou, o que pode ser pior para elas, incentivar o surgimento de alternativas como a Aliança Catalana, que se orgulham da sua pureza nacionalista e não se envolveram ainda em pactos com o governo do Estado espanhol. É por isso que a situação política de Junts é estrategicamente tão ruim, pois não tem quase nenhuma capacidade de movimento. Se voltar a ceder diante dos socialistas em troca de alguma contrapartida, poderá ser visto como uns botiflers pelos mais puros, e não ceder é reconhecer que o que fizeram até agora não teve nenhum resultado. É o que acontece por não pensar a longo prazo e não ter uma visão estratégica da nação.