Guerra económica

Há quase trinta anos, dois coronéis chineses, Qiao Liang e Wang Xiangsu, formularam uma doutrina militar conhecida como "guerra irrestrita" num livro com o mesmo título. Esta teoria propõe esbater as fronteiras entre a guerra e a paz e alargar o conflito a domínios não exclusivamente militares, como a cultura, a tecnologia, a opinião pública ou as finanças. A doutrina parece ter tido êxito e tem sido aplicada, de diversas formas, a muitos conflitos desde então. Os iranianos parecem ter aprendido bem a doutrina e estão a aplicá-la para se defenderem de dous dos exércitos mais poderosos do mundo. Os iranianos sabem que a sua capacidade militar convencional não se pode equiparar à dos agressores e têm experimentado uma nova forma de guerra, centrada em causar danos económicos, primeiro aos aliados deles na região e depois a eles próprios de forma indireta, utilizando, aliás, armamento de baixo custo e fácil reposição, como minas, drones e embarcações ligeiras.

Em primeiro lugar, atacaram refinarias e poços de petróleo nos Emirados, no Qatar, no Bahrein e no Kuwait e, ocasionalmente, na Arábia Saudita, prejudicando não só as suas infraestruturas, mas também a sua credibilidade como refúgio seguro para os investimentos. Os Emirados Árabes Unidos, especialmente um deles, Dubai, tinham conseguido tornar-se um centro financeiro mundial, principalmente para capitais asiáticos, ao mesmo tempo que desenvolviam uma indústria turística e de serviços muito forte. Acabaram de constatar a importância do que se denomina risco-país geopolítico, ou seja, que não basta contar com instituições ou normas adequadas, mas que é muito importante ter em conta a localização de um país, quais são os seus vizinhos e os riscos que isso acarreta. Os Emirados e outros reinos da Península Arábica viram como os Estados Unidos, apesar de terem bases militares neles, não só não conseguiam protegê-los, como, precisamente por serem aliados deles, se tornavam alvo legítimo das suas represálias, uma vez que essas bases eram a origem dos ataques. Com perspicácia, os iranianos atacaram estes países onde lhes podiam causar mais danos: a sua estabilidade financeira e a sua imagem de refúgio seguro. A imagem de muitos ocidentais a abandonar, de forma desordenada, estes países foi devastadora para a sua imagem mundial, tal como o foi a retirada de fundos por parte de muitos investidores, com destino a Hong Kong ou à Suíça, que parecem sair a ganhar com a crise. Os danos causados aos seus parceiros na região, incluindo a interrupção dos fluxos de petróleo devido ao encerramento temporário do estreito de Ormuz, podem ter levado Trump a reconsiderar a sua posição, uma vez que já não vê a agressão como um negócio tão vantajoso, dado que estes países poderiam muito bem mudar as suas alianças caso os Estados Unidos os abandonassem à sua sorte perante um Irão enfraquecido, mas ainda com capacidade de retaliação.

No entanto, o dano que Trump e Netanyahu mais temem é o infligido às suas próprias sociedades. A guerra consome muitos recursos, humanos e materiais, e poucas sociedades conseguem sustentá-la a médio prazo sem sofrer uma grave deterioração nas suas contas, e ainda mais se não for previsível a obtenção de algum benefício tangível. Os novos teóricos da guerra lembram-nos que uma das melhores defesas que se pode conceber é tornar a continuação de uma guerra tão cara que não compense para o agressor, por mais vitórias que obtenha no campo de batalha. Este parece ser o caso, pois Trump não só não vai ganhar a guerra, como vai arrasar a economia do seu país e a dos seus parceiros.