Venezuela, e agora o que fazemos

O sequestro do presidente Maduro e a sua substituição, nada surpreendente, pela vice-presidente Delcy Rodríguez, sem dúvida desorientou grande parte das forças da direita, que apoiavam María Corina Machado como substituta. Estas talvez pretendessem que ela assumisse o poder escoltada por fuzileiros navais norte-americanos, algo que Trump e o seu governo consideravam, muito razoavelmente, não só inadequado, mas também impossível na conjuntura atual. Agora, elas ficam em terra de ninguém, sem ousar condenar a intervenção, algo que, se se dessem ao trabalho de estudar um pouco do pensamento que inspira os conservadores e libertários americanos, deveriam fazer sem duvidar, como fez boa parte da direita americana, especialmente a mais próxima do movimento MAGA. De facto, em coerência, vários dos seus membros recusaram-se a conceder poderes de guerra a Trump no Senado e, há alguns dias, no Congresso, também votaram contra permitir que ele usasse esses poderes, ainda que, neste caso, a moção tenha sido rejeitada por uma margem mínima, após um empate. Alguns membros do Partido Democrata também votaram contra, mas porque o presidente americano não desmantelou totalmente o atual governo venezuelano.

Eles ficam numa posição muito delicada, porque se apoiarem Trump estarão a apoiar a continuação do chavismo, enquanto que se não o fizerem ficarão condenados à irrelevância, o que implica que já não poderão confiar que a atual administração republicana resolva a questão venezuelana da forma que eles desejariam, com o agravante de que reconhece o atual governo e desmantela em grande parte os argumentos da oposição.

Entretanto, os primeiros carregamentos de petróleo já começam a ser descarregados nas refinarias norte-americanas, comprados com descontos substanciais no preço. Isto, no entanto, não coloca em boa posição os apoiantes do regime venezuelano. Pelo que se pode perceber, o atual governo dos irmãos Rodríguez e de Diosdado Cabello, que também parece ter negociado com os norte-americanos a destituição de Maduro, é agora um fiel aliado de Trump, que agora lhe dedica boas palavras, estando até disposto a recebê-lo na Casa Branca. Não tenho dúvidas de que suspenderá a ajuda ao governo cubano e reduzirá os envios de petróleo a países inimigos dos Estados Unidos, tornando-se agora um dos melhores e mais fiéis peões do império americano na região. Aqueles que até recentemente manifestavam o seu apoio ao governo de Caracas encontram-se agora com um dilema semelhante ao dos direitistas. O governo que até agora defendiam por motivos ideológicos passa agora a defender políticas contrárias às que eles próprios tinham levado a cabo, e continuar a defendê-lo coloca-os imediatamente na situação de lacaios do império, com o agravante de serem praticamente as mesmas pessoas de antes. Distanciar-se deles implica concordar com os opositores na necessidade de desmantelar o regime e convocar novas eleições. Compreende-se, então, as razões pelas quais nem uns nem outros estão especialmente satisfeitos com a intervenção militar e que a questão tenha desaparecido rapidamente da discussão pública.
Resta saber o que dirão uns e outros quando for negociada a mudança no atual regime cubano, provavelmente de forma incruenta, mas com uma transição pilotada pelo atual governo, como na Venezuela, e na qual permaneceriam boa parte dos atuais dirigentes. Exatamente como na transição espanhola, da qual parecem estar a aprender.