A soledade de Maduro
Deixe claro que sou contra intervenções militares em outros países, incluindo aquelas que poderiam ser mais simpáticas para mim. Não se pode pregar a não intervenção estatal em assuntos económicos e depois defender intervenções estatais violentas e ainda mais fora das próprias fronteiras. É por isso que sou contra a Rússia na guerra da Ucrânia, pois não se pode atacar outros apenas por se sentir ameaçado ou por sentir que o território de outro Estado faz parte do nosso. Suponho, então, que muitos dos defensores da Rússia entenderiam uma hipotética invasão da Venezuela porque os Estados Unidos se sentem agredidos pelo terrorismo dos cartéis de droga. A invasão da Ucrânia enfraquece muito a posição de outras potências, especialmente os Bric aliados da Rússia, que se opõem à intervenção na Venezuela. Digo hipotética porque, no momento em que escrevo, não sei o que pode acontecer, embora, vistos os precedentes de Trump, tudo aponte mais para uma medida de pressão para criar fissuras dentro do regime venezuelano, combinada com algum tipo de levante popular, para derrubá-lo sem necessidade de recorrer à força militar ou de fazê-lo de forma muito limitada e cirúrgica, ao estilo dos ataques ao Irão há dous meses. Iniciar uma nova guerra não parece ser uma ação que agrade especialmente à sua base, cansada de ter que intervir em conflitos em lugares distantes para eles. Lembremos que ele usou como elemento de campanha o facto de nunca ter iniciado uma guerra e que o seu objetivo era acabar com as que já existem. Mas ele é um político que não pode ser reeleito e pouco lhe importa o que a sua base pensa.
Mas o que chama a atenção é a soledade diplomática do regime de Maduro entre os seus vizinhos. O diplomata e assessor especial da presidência do governo brasileiro, Celso Amorim, duas vezes ministro das Relações Exteriores, afirmou que o governo brasileiro nunca reconheceu o governo de Maduro, uma vez que este não apresentou as atas eleitorais, o que foi rapidamente entendido como uma indicação de que o governo do Brasil não iria interferir na disputa. O outro grande governo vizinho da Venezuela, e supostamente aliado, a Colômbia, presidida por Gustavo Petro, também com linguagem diplomática, quis afastar-se do conflito, insinuando que o governo de Maduro não tinha feito o suficiente para controlar o narcotráfico no país. Outros países da região, como o Equador ou o Paraguai, passaram a declarar o Cartel dos Soles, que segundo os norte-americanos seria liderado por altos cargos do governo de Maduro, como um grupo terrorista, o que implica que pode ser legitimamente combatido.
Não parece que a América Latina vá se levantar furiosa contra a agressão ianque, como diz Maduro, nem mesmo protestar como fazia em outros tempos. Dos países da Europa ou de sua representante externa, a senhora Kallas, não creio que venham muitos protestos, nem mesmo retóricos, incluindo o Reino de Espanha no grupo.
Também não parece que os seus parceiros russos ou chineses vão fazer muito por ele. Os russos não têm meios para o fazer, enquanto os chineses não parecem querer envolver-se em conflitos fora das suas fronteiras, e não creio que queiram arriscar-se a sanções por o fazer. No entanto, a pior solidão de Maduro é a desafetação do seu povo, que sabe que não só não estaria disposto a lutar por ele, mas que, em grande parte, ficaria feliz com a sua derrota. As razões pelas quais isso aconteceria teriam de ser perguntadas a ele, aos que o apoiam e aos que têm relações com ele. De qualquer forma, espero sinceramente que não haja mais uma guerra no mundo.