Repetição das eleições na Roménia: mais un erro da UE

Li neste jornal com grande interesse, mas sem surpresa, que o Tribunal Constitucional romeno suspendeu a segunda volta das eleições presidenciais na Roménia, depois de um candidato, o nacionalista de direita pró-russo Culin Georgescu, contrario o apoio à Ucrânia na sua guerra com a Rússia, ter passado à segunda volta sem sequer ganhar ainda as eleições. As razões invocadas prendem-se com o facto de ter havido interferência da Russia através da manipulação de influenciadores e contas falsas no TikTok e no Telegram, o que teria feito com que uma grande parte do eleitorado se voltasse a seu favor. Não sei se a decisão dos juízes romenos se deve a algum tipo de interferência externa, más sabendo como se formam tribunais deste tipo no nosso espaço político não me pareceria estranho e por isso não me surpreende, mas se for, parece-me não só uma decisão errada e antidemocrática como também estúpida. Além disso, se houvesse alguém responsável de fora do país, eu inclinar-me-ia mais para a União Europeia do que para a NATO. A UE tem mais experiência nestas tarefas, não foi em vão que ordenou no passado vários referendos que se revelaram contrários aos seus interesses e sabe perfeitamente como é que estas coisas se fazem, e sem levantar suspeitas de falta de democracia. E vejam só como os meios de comunicação mais pró-europeus tratam a notícia, como um triunfo do Estado de direito e da democracia face à supostamente omnipotente interferência russa. 

Trata-se, a meu ver, de uma atitude errada, em primeiro lugar porque põe em causa muitos dos princípios democráticos que supostamente fazem parte dos princípios orientadores da União Europeia. Não se pode anular uma eleição ganha por um candidato que nem sequer faz parte do governo e cujo partido só moi recentemente foi formado, e que, por conseguinte, não dispõe de meios para efetuar fraudes eleitorais. Os meios pro-UE também não podem criticar Venezuela e depois fazer o mesmo que eles. 

É estúpido, na minha opinião, porque pensam que algumas contas nas redes sociais podem alterar substancialmente os resultados de uma eleição e porque isso implicaria reconhecer a incapacidade das forças pró-UE e pró-NATO de fazerem o mesmo no seu próprio território, porque sim que o fazem noutros, como na Geórgia ou na Moldávia ou, antes disso, na Ucrânia. Se é tão fácil manipular o eleitorado, em vez de adiar as eleições com o risco de conflito que isso implica, o que deviam fazer era contratar três ou quatro tuiteros e um par de youtubers para difundir a sua propaganda e ponto. O problema é que já o fazem, mas os seus influenciadores, no caso europeu, não são geralmente populares entre os consumidores desses conteúdos, nem os que são populares recebem muita atenção. Não podem estar a dizer seriamente que os especialistas em propaganda russa são tão bons que nem os melhores especialistas em propaganda do capitalismo lhes conseguem fazer frente. Se fossem tão eficazes como os europeístas dizem que são, não precisariam de invadir nada. Bastariam alguns canais de Telegram para render o inimigo ucraíno.

O que devemos perguntar-nos é por que razão uma grande parte da população não acredita no que eles dizem, e penso que é porque está cada vez mais farta das suas histórias e das suas derivas antidemocráticas, que acontecimentos como este apenas corroboram.