A invasão do Irão e a questão nacional

A aventura imperial do presidente Trump, muito provavelmente induzida por Israel, está a suscitar muitos debates sobre as suas motivações, quais poderiam ser os resultados da guerra ou as possíveis repercussões na política espanhola. Na minha opinião, quem vai ganhar a médio prazo na ordem internacional é a China, independentemente dos resultados no campo de batalha, pois, sem se intrometer demasiado no conflito, está a ver como o seu principal rival pela primazia mundial se está a desgastar noutra guerra sem um fim certo. Na política espanhola, atualmente, o grande vencedor é o presidente Sánchez, que vê reforçada a sua liderança na Europa, por ter sido o primeiro a ousar discordar de Trump, e na política interna, pela precipitação excessiva do PP ao apoiar a invasão e pelo reforço do espaço da esquerda.

Mas há uma dimensão que raramente é abordada, que é a repercussão que o conflito pode ter na questão nacional do espaço iraniano. Devemos lembrar que as guerras têm sido grandes catalisadores dos movimentos nacionalistas e deram origem à independência de novos Estados, desde a Primeira Guerra Mundial, curiosamente também por influência dos Estados Unidos e o seu famoso princípio das nacionalidades de Wilson. A independência da Irlanda é, em grande parte, fruto dessa guerra, assim como as da Finlândia, Polónia ou dos Estados surgidos do antigo Império Austro-Húngaro. No Irão, pode muito bem acontecer algo semelhante, pois a tentação dos agressores, caso o conflito se prolongue, pode muito bem ser a de armar as numerosas minorias nacionais existentes no atual território persa. O Irão é identificado com a maioria farsi xiita, mas existem muitas nacionalidades no seu interior, sendo uma das principais a dos azeris, que são de língua turca, mas de confissão xiita, à qual pertencia o presidente assassinado Ali Khamenei, e que conta com o apoio da vizinha República do Azerbaijão, que foi atacada pelo regime persa sem provocação prévia. Os baluchis iranianos são outra delas, já em conflito com o atual Estado persa e com o paquistanês, e que sem dúvida poderiam ser apoiados pelos invasores para enfraquecer o atual regime. Há também as minorias Qashqai ou a turcomana, esta última também com ligações externas. Mas, sem dúvida, uma das principais cartas na manga do invasor será apoiar-se nos combativos curdos, tradicionalmente usados como arma de guerra nas disputas territoriais na região e que, segundo informam vários meios de comunicação, já estão a ser armados para esse fim pela Mossad. É o que acontece quando não se atende às reivindicações das nações, que, em caso de conflito externo, podem aliar-se ao invasor, como bem aprenderam os ingleses durante a Primeira Guerra Mundial, quando os nacionalistas irlandeses se aliaram aos alemães contra o inimigo comum inglês.

Além disso, o regime iraniano está a atacar vários emirados islâmicos, como o Kuwait ou o Bahrein, juntamente com o reino da Arábia Saudita, todos com forte presença da população xiita no seu interior e não especialmente bem tratada pelas elites governantes sunitas. Estes ataques, além de afugentar o comércio e o turismo da região, podem ter como objetivo o levantamento da população xiita, como já aconteceu no Bahrein durante a Primavera Árabe, para desestabilizar a zona e fazer com que estes emirados pressionem os agressores a pôr fim à guerra. Ainda não se sabe o que pode acontecer, mas não parece ser um mau momento para o despertar das nacionalidades, embora, infelizmente, não seja na melhor das situações.