A China está a ganhar

Com o ataque fracassado de Israel –cuja lógica não partilho, mas consigo compreender– e dos Estados Unidos –cujas motivações últimas não consigo compreender totalmente, uma vez que quebram todas as promessas eleitorais de Trump e dividem o seu movimento político–, demonstraram de forma evidente a sua incapacidade de continuar a liderar a ordem mundial. Além do erro da guerra, os americanos acabaram com alguns dos princípios que lhes permitiam transmitir uma imagem de potência confiável, ao atacarem os líderes iranianos no médio de um processo de negociação. O assassinato do líder supremo do Irão, Ali Khamenei, segundo apontam alguns médios de comunicação, foi realizado de forma traidora, durante uma reunião com os principais líderes políticos da República Islâmica, convocada precisamente para discutir as propostas dos negociadores norte-americanos apresentadas alguns dias antes, que sabiam, precisamente por isso, da existência dessa reunião.

O grande vencedor desta contenda será, sem dúvida, a China, que discretamente se tornará a primeira potência mundial, embora não em solitário, como os Estados Unidos nos últimos trinta anos, pois ainda não dispõe de poderio económico, militar e cultural suficiente. O argumento que alguns analistas utilizam para justificar a hipotética mudança de regime iraniano –o de estrangular a China no domínio energético– não me convence, pois se a China dispuser de recursos económicos suficientes, qualquer embargo seria inútil, uma vez que o petróleo acabaria por chegar de uma forma ou de outra. As sanções ao petróleo russo já foram levantadas; foram continuamente contornadas através da triangulação com outros países ou por meio do contrabando, e nada leva a crer que, no caso chinês, não aconteceria o mesmo. Além disso, a China poderia vingar-se bloqueando Taiwan, sem sequer a atacar, paralisando completamente o mercado de chips, o que prejudicaria gravemente a indústria tecnológica americana, para além de muitos outros setores industriais. Recordemos que as principais empresas norte-americanas em termos de valor de mercado pertencem ao setor das novas tecnologias e seriam, de longe, as que mais sofreriam com esta retaliação.
A China, ao mesmo tempo, observa que as capacidades militares americanas são relativamente limitadas face a um inimigo preparado, que com armas de baixo custo, como os drones, tem sido capaz até de destruir sistemas de radar extremamente caros e de difícil substituição nas bases americanas da região. Além disso, já esgotou quase totalmente as reservas dos mísseis, igualmente muito caros, utilizados para interceptar os contra-ataques iranianos. A capacidade dos Estados Unidos de projetar força para além do seu território foi severamente posta em causa.

Suponho que Trump não cometerá o erro de Putin, de se envolver numa longa guerra de desgaste que possa prejudicar ainda mais a economia americana, prestes a entrar em recessão e muito vulnerável a qualquer ataque à sua gigantesca dívida pública. Já deu a guerra por ganha, procurando uma desculpa para se retirar rapidamente do conflito, e não parece previsível que continue um conflito que não tem qualquer perspectiva de vitória. Um bom especulador, e ele vem dessa cultura, sabe perfeitamente quando se deve retirar de um negócio que não lhe vai dar qualquer lucro, em vez de continuar a acumular prejuízos. Leva consigo a erosão do prestígio da sua superpotência e a perda da primazia mundial.