Análise

O som da coruja já nom é dela

'Strix aluco' juvenis, conhecidas por corujas entre o povo, galego e português, mas rebatizadas como avelaionas pola moderna ornitologia galega. (Foto: Artur Mikołajewski)
Eduardo Maragoto, profesor de lingua portuguesa na EOI de Santiago de Compostela.

Proliferam as nomenclaturas em galego em várias áreas científicas. As últimas, os Nomes galegos das constelacións e os Nomes galegos das aves de Galicia e de España (RAG). E claro, à vista dos dados sociolinguísticos, é inevitável ter a sensaçom de que se trata duma tendência paralela à da própria decadência da língua, como o álbum de fotos que decidimos organizar quando sentimos que a nossa família começa a fragmentar-se. Porém, ao contrário dos típicos vocabulários dialetais que registam termos rústicos que nunca mais voltarám, os científicos som apresentados como fundamentais para atualizar o galego. E até poderiam sê-lo, mais pesa-lhes demasiado o desejo de criar uma nova terminologia, a meio caminho entre a portuguesa e a espanhola, que ao ficar descoordenada doutras áreas, acaba por ser útil só para o grupo de militantes do idioma que observa, neste caso, aves ou constelações.

Os linguistas ornitólogos sabem bem que, exceto quatro dúzias de nomes patrimoniais transmitidos popularmente (maçarico, pega etc.), para os restantes (mais de 10.000) temos basicamente duas opções: a coordenaçom com o português ou a criatividade (que vai desde a reciclagem de formas minoritárias de uso errático até a pura invençom). Eu som mais da primeira, mas non viria aqui queixar-me da segunda, que é a que está em voga, se a nova lista da RAG nom tivesse abolido a palavra coruja das nossas noites de inverno. Porque, se existe uma ave reconhecida em todas as casas, essa é a coruja do souto (Strix aluco), que ainda hoje fai sair muitas famílias da casa para escuitar o inquietante cu-ru que lhe dá nome, e que o povo às vezes distinguía doutra espécie, que nom fai cu-ru, só polo apelido: coruja branca (Tyto alba).

Existe uma ave reconhecida em todas as casas, a coruja do souto ('Strix aluco')

Mas o espanhol é mais radical nesta distinçom, chamando cárabo à do souto e lechuza à branca, assim que alguém deveu pensar que também nós devíamos proceder igual, e decretou para a primeira o nome de avelaiona, diz que registado em Pedra Fita do Zebreiro. Quer dizer, que devia ficar com um nome diferente do usado nos outros países do nosso velho sistema linguístico, e compatível, ainda que também diferente, com o do espanhol, de maneira que tampouco nesta ocasiom perdemos a oportunidade de dar mais um passinho na construçom de um galego que nom comunica nem ao sul do Minho, nem ao leste do Padornelo, nem entre nós.