domingo 19.01.2020

Mensagens privadas

Pero menos da Dios y está en el cielo

Blas de Otero

Como provavelmente algumas pessoas lembrem, o passado 21 de junho, publiquei em Sermos Galiza um artigo sobre questões relacionadas com a norma da Real Academia Galega-ILG e o déficit democrático que, do meu ponto de vista, a aplicação dessa norma implica. No artigo sinalava, de passagem, que advertia, nessa aplicação, uma atitude eclesiástica, resumida na frase “como eu não me divorcio, nem aborto, nem sou gay, ninguém se pode divorciar, nem abortar, nem optar por uma determinada sexualidade”.

Dez e oito horas e quarenta e oito minutos depois da publicação do artigo, recebi uma mensagem privada, através duma rede social, na que se me recriminava a alusão à Igreja, ao tempo que se me lembrava que o Islã mata homossexuais e a esquerdalhada (sic) não condena o Islã, como se eu fosse islamista ou juiz. Devo dizer que eu não pertenço à esquerdelhada, mais à esquerda, feito do que me orgulho com sinceridade, ao tempo que afirmo que acho esse termo, esquerdelhada, desdenhoso e impróprio de ser dirigido a uma coletividade de pessoas dum determinado cunho ideológico.

Para além disto e entrándomos já no assunto, não deixa de surpreender a asimetria do razoamento da pessoa que me interpela, porque, segundo ela, a Igreja tem todo o direito a se expressar sobre o que for, dada a liberdade que cumpre supor-lhe ao pensamento, mas eu não devo, deduzo, possuir tal direito. Como é óbvio, eu assino de olhos fechados a proposta da liberdade de expressão e é justamente por isso polo que decido expor livremente o meu ponto de vista.

Provavelmente a pessoa interpelante seja religiosa, questão que eu, sem o ser, respeito, mas, para além do respeito, tenho um compromisso com a verdade, que me faz expressar o profundo nojo e repugnância que me produz a hierarquia católica quando lembro os e as queimadas pola Inquisição, os curas delatores, de pistola no cinto, do 1936, as beições das tropas nazis por Pio XII, os novecentos bispos de tudo o mundo a reconhecerem a justiça do golpe de estado franquista, os bispos espanhóis braço em alto cantando o Cara al Sol, a facilitação de fugida dos nazis derrotados ao longo de conventos e mosteiros da rota das ratas —à que Vigo pertencia— articulada com ajuda vaticana, a atitude da Igreja perante os assassinatos de monsenhor Romero ou Ignacio Ellacuria, as violações de missioneiras em África polos que se diziam companheiros de apostolado, os bispos pederastas que tanta dor levam gerado a tantos miúdos, o ataque da hierarquia espanhola a qualquer elemento de progresso que arvore o atual papa Francisco, o assassinato de papas que a hierarquia não estima ótimos, a lavagem de dinheiro suspeitoso, o Banco Ambrosiano, o arcebispo Marcinkus e a mafia, os dez mil milhões de euros que, por diversos conceitos, a Igreja subtrai anualmente às arcas do Estado espanhol, os IBI e outros impostos não pagos, as ajudas estatais constantes ao mantimento do patrimônio eclesial, as isenções de tributações como no caso das herdanças, os ingressos opacos, a desvergonha encabeçando manifestações contra os governos se estes não se dobram às suas exigências, as palavras de cardeais e bispos contra o feminismo ou a liberdade, as doações estatais variadas, os curas de cárceres, hospitais ou centros religiosos que doutrinam segundo os seus interesses e cobram do dinheiro público, as restaurações gratuitas de imóveis do clero, as visitas turísticas noturnas a certos edifícios religiosos, como a catedral de Toledo, na que se oferecem concertos de órgão, com algum ágape e bebida espirituosa por nove mil euros a grupos de dez pessoas, a isenção da Igreja do cumprimento da Lei de Associações, convertendo-a numa estrutura alheia à democracia e à possibilidade de controle financeiro, os trabalhadores religiosos que o bispado escolhe e a Junta paga, o 49% da superfície da cidade velha compostelã que é da sua propriedade, a apropriação indevida de terreiros e casas reitorais, a luta contra a vizinhança de São Xurxo de Sacos, em Cotobade, não disposta a que a Igreja lhe roubasse a sua carvalheira e, já que falo de carvalheira, as mais de mais de 900 carvalheiras, cemitérios, veigas etc. que , só na Galiza, possui e assim por diante.

Poderia ter-me referido à Igreja com o termo clericalhada ou motejá-la, resgatando do fundo das lembranças um grafite que um dia, já longínquo na memória, vira na Lombardia, concretamente em Bérgamo, que reclamava cloro al clero, mas preferi cingir-me a uns poucos dados que a minha mente guarda. E, depois do escrito, penso que essas poucas palavras que escrevi, referidas ao divórcio, o aborto ou a questão LGTBI são pouco, mui pouco, em verdade, perante o horror que a história da Santa Mãe Igreja nos fornece.

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