luns 25/01/21

Rehabilitar Martinho Lutero

O título da coluna de hoje pode semelhar confuso. Para um cristão evangélico / protestante não há nada que reabilitar: Martinho Lutero é o grande reformador e a ele devem-lhe quase tudo na sua identidade religiosa. Porém, para um cristão católico-romano ou um católico-ortodoxo, pode ter uma razão de ser; ou, pelo contrário, pode ser uma aposta subversiva e sem jeito: Lutero é um herege contumaz que rompeu com a Igreja estabelecida e que não pode ser reabilitado.

Há algo em comum para os três coletivos citados: são cristãos; seguidores de Jesus-Cristo. Mas ao longo dos dois mil anos de existência do cristianismo foram dividindo-se e foram expressão não de um sano pluralismo, mas de enfrentamentos violentos e mesmo assassinos; no caso de Europa levaram a guerras que chegaram a dizimar a povoação.

Desde há décadas já não é tão assim, mas ainda avonda o enfrentamento, sobretudo no sul de Europa e na América Latina, com desqualificações e insultos. Porém, desde há mais de cinquenta anos, com o Concílio Vaticano II, a Igreja católica-romana uniu-se ao esforço ecuménico iniciado há anos na vontade de respeitar os cristãos doutras confissões e mesmo fazer um caminho juntos com as suas diferenças.

Nisto houve há uns meses uma notícia que considero muito importante: a vontade da Igreja católica-romana de revogar a excomunhão que fez de Lutero há quase cinco séculos (1521). O papa Francisco reconheceu que Lutero era um “reformador” que quis melhorar a Igreja, não um perverso destrutor que quis acabar com ela, como se repetiu nos últimos quinhentos anos.

Esta revogação da excomunhão a Lutero por parte da Igreja romana seria um ato simbólico muito importante; um verdadeiro passo de gigante para a união dos cristãos, que muitos teólogos consideramos necessário e urgente.

Muitos fomos compreendendo que a unidade que buscamos não deve ser sob a autoridade jurídica do papa de Roma –ainda respeitando o seu papel– mas ir fazendo um caminho em comum de unidade na diferença. A unidade é boa, a uniformidade é má, empobrece-nos; as diferenças enriquecem-nos, não devem enfrentar-nos mas unir-nos na paz e na justiça de Jesus-Cristo para o mundo.

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