martes 15/06/21

Os mais débeis

A pesar das palavras de Camus de que o suicídio é um "problema filosófico": "julgar se a vida vale ou não a pena vivê-la", penso que não se trata duma questão de razoamento, mas que é um problema relacionado com a saúde psíquica e espiritual. "O resultado fatal dunha doenza mental", disse acertadamente nestas páginas a psiquiatra Iria Veiga.

Um problema que é particularmente grave na Galiza. Os dados – como lembrava há umas semanas este Diario– são expressivos: Galiza é o segundo território a nível estatal em taxa de suicídios por cada 100.000 habitantes (10,81), só por debaixo de Astúrias; e é a primeira causa de morte violenta na Galiza por diante dos acidentes, particularmente na Galiza interior, como pude comprovar nos meus anos em Lugo. É um problema que requer a atençao social adequada, pois em bastantes casos poderia ser evitável com uns meios adequados: um teléfono público no qual pedir ajuda e as "unidades de suicídios".

Em qualquer caso, o suicídio é um sucesso que precisa sempre de respeito e acolhida amorosa; tanto do suicida como da família e o entorno, desbotando juízos morais. Não se podem buscar doadamente culpáveis. Tão só, no meio dum mundo de sensentido, desamor e soledade, repetir tímida e teimosamente os versos de Paul Eluard: "A noite nunca é completa/ sempre há... ao final da pena/ uma janela aberta, uma janela iluminada".

Afortunadamente, a Igreja foi abandonando nas últimas décadas os juízos duríssimos que fazia dos suicidas, proibindo o seu enterro em sagrado. Deste jeito, a que pretende ser mestra de vida esquecia que um suicida é um pobre de Deus, uma pessoa débil; a mais indigente de todas, pois perdeu as razões para viver, mais ainda que outras pessoas que podem estar numa situação maior de precariedade vital por razões económicas ou sociais. Mais que "ir para o inferno", "vem dum inferno", dizia um moralista.

Por isso, é uma pessoa especialmente amada pelo Deus dos pobres; não alguém condenada por ele, mas uma pessoa particularmente querida dele. Um Deus que é "o amigo fiel, o companheiro no sofrimento, o que te entende" (Whitehead).

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